Você filmaria sua casa para treinar robôs?
Filmar tarefas domésticas já virou uma forma de alimentar sistemas de inteligência artificial. Empresas pagam por vídeos em primeira pessoa de atividades como lavar louça, dobrar roupas e servir bebidas, que ajudam robôs humanoides a aprender movimentos do mundo real.
A casa virou fonte de dados
Robôs que prometem ajudar em casa precisam dominar tarefas simples para humanos, mas difíceis para máquinas. Cortar pepino, despejar água em um copo e amarrar sapatos exigem coordenação fina, visão espacial e repetição.
De acordo com a Wired, plataformas de startups dos Estados Unidos, como Kled, Luel e Waffle Video pagam usuários para gravar tarefas do cotidiano com câmeras presas à cabeça ou ao corpo. A indústria chama esse material de “dado egocêntrico”, porque registra a atividade pelo ponto de vista de quem executa a ação.
Esses vídeos têm valor porque mostram mãos, objetos, ritmo, erros e pequenos ajustes. Vídeos comuns da internet não entregam sempre esse nível de detalhe.
Quanto dá para ganhar
A promessa é fazer tarefas domésticas, gravar tudo e receber por isso. A experiência prática mostra um mercado ainda irregular.
Na Luel, uma tarefa oferecia US$ 6,60 por uma hora de vídeo. O valor fica abaixo do salário mínimo federal dos Estados Unidos, de US$ 7,25 por hora.
Na Waffle Video, algumas missões pagam US$ 25 por hora de vídeo. As tarefas incluíam amarrar cadarços, despejar líquidos e lavar louça.
A Kled paga US$ 1 após o envio de 9 vídeos egocêntricos e 97 fotos de viagem. A plataforma exige 100 mídias antes de liberar qualquer pagamento.
O que as empresas querem comprar
As empresas querem vídeos limpos, com instruções claras e metadados úteis.
Na Waffle Video, cada arquivo passa por um sistema chamado MAPLE, para checar direitos autorais, rotular o conteúdo e preparar o material para treino de IA.
Porém, as exigências podem ser rígidas. A Luel, por exemplo, pediu câmera na cabeça, imagem horizontal, resolução mínima de 1080p e mãos visíveis em 95% do vídeo.
O lado incômodo da renda extra
A pessoa ganha pouco hoje para ensinar um sistema que pode reduzir trabalho humano amanhã.
William Namgyal, fundador da Luel, reconhece esse risco. “Meu maior medo é que o desemprego suba extremamente alto”, afirmou. Para ele, esse tipo de plataforma cria renda rápida, mas não resolve tendências do mercado de trabalho.
Avi Patel, fundador da Kled, vê outro caminho. Ele acredita que profissionais especializados podem ganhar mais gravando habilidades difíceis. Um chef, por exemplo, teria mais valor ao demonstrar cortes precisos do que alguém fazendo tarefas simples.
Para o usuário, o alerta vai além da renda extra. Esse novo trabalho envolve privacidade, direitos sobre dados, remuneração baixa e substituição de atividades humanas.
