Bancos começam a tratar agentes de IA como funcionários digitais
Os grandes bancos de Wall Street estão acelerando a adoção de inteligência artificial agêntica, tecnologia capaz de executar tarefas com supervisão humana mínima, em funções que vão desde gestão de patrimônio e atendimento a clientes até negociações e tesouraria. A corrida tecnológica envolve instituições dos EUA como Morgan Stanley, BNY, UBS, Goldman Sachs, JPMorgan e Citi, cada uma em estágios diferentes de integração desses assistentes digitais às operações cotidianas.
Levantamento da KPMG realizado em junho de 2026 revelou que 51% dos bancos já estavam em fase piloto com agentes de IA, segundo a Reuters. A expansão reflete a pressão de investidores por retorno sobre os gastos tecnológicos crescentes e a busca das instituições por ganhos de produtividade mensuráveis.
No Morgan Stanley, a adoção caminha para o atendimento direto ao cliente. Koren Maranca, responsável pela área de inteligência artificial para gestão de patrimônio do banco, anunciou que a instituição iniciará testes com assistentes digitais voltados aos clientes ainda neste verão, com disponibilidade em qualquer horário do dia. Esses agentes poderão analisar investimentos, sugerir estratégias e auxiliar na construção de carteiras. “Estamos agora preparando esses agentes para começar a enviar lembretes ou recomendações aos assessores financeiros sobre seus clientes”, declarou Maranca. A executiva destacou que haverá sempre supervisão humana e que os agentes não terão autonomia para tomar decisões sobre portfólios.
Funcionários digitais com crachá e gestor
O BNY foi além na integração. Trata seus agentes de IA como membros efetivos da equipe. Os chamados “funcionários digitais” recebem identificadores de login e apelidos para operar nos sistemas internos, além de um gestor humano responsável pelo treinamento e controle de qualidade.
Robin Vince, CEO do BNY, explicou o modelo em podcast do Wall Street Journal no início deste ano, usando como exemplo o assistente digital batizado de Payment Pete. “O funcionário digital tem um login, pode operar nos sistemas e tem um gestor humano responsável por treiná-lo, garantir que esteja fazendo tudo certo, como uma avaliação de desempenho, e tem tarefas todos os dias”, descreveu Vince.
No UBS, assessores financeiros recebem milhares de alertas diários gerados por agentes de IA, como notificações sobre anuidades de clientes que estão vencendo e precisam de reinvestimento. Richard James, chefe de produto de IA do banco, informou que os agentes reúnem informações internas de reuniões, contas e comunicações por e-mail para subsidiar as decisões dos assessores.
Depois que um assessor define a transação com o cliente, os agentes executam negociações e transferências de forma autônoma. O UBS afirma que a tecnologia já permite que os assessores dediquem 70% do tempo ao relacionamento com clientes, em vez de tarefas rotineiras.
Expansão e cautela regulatória
Goldman Sachs firmou parceria com a Anthropic no início deste ano para desenvolver agentes voltados a negociações, contabilidade de transações e análise de clientes. O JPMorgan identifica áreas como tesouraria corporativa como terreno fértil para a IA agêntica, enquanto o Citi se prepara para lançar um “membro de equipe” virtual para gestão de patrimônio.
A expansão, no entanto, atrai atenção de reguladores e dos próprios executivos dos bancos sobre os riscos envolvidos. As instituições têm concedido acesso dos agentes a sistemas internos, mas com mecanismos de controle. “Os bancos ainda usam a tecnologia principalmente para fins internos e estão sendo extremamente cautelosos quando ela toca o cliente, garantindo que haja um humano envolvido em qualquer função crítica”, avaliou Bhavi Mehta, líder global de análise avançada em serviços financeiros da Bain & Company.
Para Peter Torrente, líder do setor bancário nos Estados Unidos da KPMG, a pressão dos investidores por retorno direciona os bancos a concentrar investimentos nas áreas onde os ganhos são mais evidentes e escaláveis.
