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Remédio contra apneia pode mudar o tratamento do sono

Pílula reduziu eventos de apneia do sono em estudo de fase 3 e pode ampliar opções para quem não tolera CPAP.
Imagem: Unsplash

Uma pílula tomada uma vez por noite reduziu interrupções respiratórias em adultos com apneia obstrutiva do sono em um grande estudo de fase 3. O medicamento, chamado AD109, mira causas neuromusculares do colapso das vias aéreas durante o sono.

O resultado, publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, importa porque muitos pacientes não toleram o CPAP, aparelho considerado padrão no tratamento da apneia. O novo remédio ainda depende de análise regulatória, mas já entrou no radar da FDA, a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, equivalente à Anvisa no Brasil.

O que muda para quem tem apneia do sono

A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea superior fecha ou estreita durante a noite. Isso interrompe a respiração, reduz o oxigênio no sangue e fragmenta o sono.

Na prática, o corpo passa a noite em pequenos “trancos” invisíveis. A pessoa pode acordar cansada, roncar, ter sonolência durante o dia e conviver com riscos que exigem acompanhamento médico.

O AD109 tenta atacar a perda de sustentação muscular na garganta durante o sono. Em vez de empurrar ar para manter a via aberta, como faz o CPAP, a proposta é ajudar os músculos a impedirem o colapso.

Como a pílula funcionou no estudo

O estudo SynAIRgy acompanhou 646 adultos com apneia leve, moderada ou grave. Todos não toleravam ou recusavam o uso de CPAP.

Os testes ocorreram por seis meses em 69 centros dos Estados Unidos e do Canadá. Os participantes receberam AD109 ou placebo.

Entre os pacientes que tomaram AD109, o índice de apneia-hipopneia caiu cerca de 44%. Esse indicador mede quantas interrupções ou reduções importantes da respiração ocorrem por hora de sono.

No grupo placebo, a redução ficou em cerca de 18%. O remédio também melhorou o índice de dessaturação de oxigênio, que mede quedas de oxigênio no sangue durante a noite.

Mais de 40% dos pacientes que usaram AD109 melhoraram de categoria de gravidade da doença. Além disso, 18% alcançaram controle completo da apneia obstrutiva do sono.

Por que isso chama atenção

O dado mais relevante não está apenas na queda dos eventos respiratórios. O ponto principal é o mecanismo.

O AD109 combina aroxibutinina e atomoxetina. Essas duas substâncias atuam em conjunto para sustentar os músculos da garganta e reduzir o risco de obstrução durante o sono.

Ou seja, a pílula tenta tratar uma causa funcional do fechamento da via aérea. Isso diferencia o medicamento de abordagens mecânicas, como máscaras e aparelhos de pressão positiva.

“Esses resultados oferecem evidências encorajadoras de que mirar a disfunção neuromuscular pode se traduzir em desfechos clínicos significativos”, afirmou Patrick John Strollo, médico do sono da Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, ao MedicalXpress.

Para ele, os dados acompanham a compreensão mais recente da biologia da doença. A apneia, nesse enquadramento, não envolve apenas anatomia ou excesso de peso. Ela também passa pelo controle muscular da via aérea.

CPAP segue como referência

O CPAP continua como tratamento padrão para apneia obstrutiva do sono. O problema é a adesão. Porém, muitos pacientes abandonam ou recusam o aparelho por desconforto, dificuldade de adaptação ou incômodo durante a noite. .

Strollo comparou esse cenário a doenças crônicas como problemas cardiovasculares, asma e diabetes tipo 2. Para ele, seria impensável aceitar que a maioria dos pacientes diagnosticados ficasse sem tratamento adequado nessas áreas.

Na apneia, porém, essa realidade ainda existe. Uma pílula oral poderia ampliar as opções para quem hoje permanece sem controle da doença.

Segurança ainda pesa na balança

O AD109 apresentou perfil de segurança considerado aceitável no estudo. Os efeitos colaterais mais comuns incluíram boca seca, náusea, insônia e dificuldade para urinar.

Ainda assim, cerca de 21% dos pacientes interromperam o tratamento por causa de efeitos adversos. Esse número é importante para não tratar a pílula como solução simples ou automática.

Isso porque um remédio noturno pode parecer mais fácil que uma máscara de CPAP, mas a tolerância real depende de eficácia, segurança e acompanhamento médico.

Quando pode chegar ao mercado?

O AD109 recebeu designação “Fast Track” da FDA para tratamento da apneia obstrutiva do sono. Esse status reconhece a necessidade de novas terapias farmacológicas eficazes e bem toleradas.

A Apnimed já enviou o pedido de aprovação do novo medicamento à FDA. A empresa espera uma possível data de decisão regulatória no primeiro trimestre de 2027, caso a agência aceite o pedido para análise.

Ainda não existem informações sobre preço, disponibilidade no Brasil e eventual chegada a farmácias nacionais.

Por enquanto, o avanço mais concreto é científico e regulatório. A pílula mostrou resultado em fase 3, mirou uma causa biológica da apneia e abriu uma nova frente para pacientes que não conseguem usar CPAP.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo principalmente sobre ciência, tecnologia e cultura nerd e geek. Entusiasta da astronomia, acompanha temas ligados à exploração espacial e é fã de Star Trek.