Pai da internet quer dar identidade digital aos agentes de IA
Vint Cerf, um dos arquitetos dos protocolos que sustentam a internet aberta, passou a integrar o conselho consultivo da Innovation Labs nessa semana. A organização trabalha para criar uma arquitetura aberta de identificação de agentes de inteligência artificial (IA) na internet. Cerf anunciou a decisão uma semana após deixar o Google, onde trabalhou por duas décadas.
A Innovation Labs é subsidiária da Identity Digital, empresa de registro de nomes de domínio (DNS). A companhia aposta na infraestrutura de domínios como mecanismo prático para responsabilizar agentes de IA e se posicionar num cenário em que grande parte das interações online ocorra entre agentes automatizados, e não entre pessoas.
A iniciativa responde a um problema no avanço dos agentes de IA. A maioria deles opera hoje dentro de sistemas proprietários, utilizando recursos internos para funções específicas. Empresas, porém, já projetam um ambiente em que esses agentes funcionem de forma muito mais autônoma pela internet e interajam diretamente entre si. A ausência de um padrão compartilhado para identificar e auditar esses agentes é o principal obstáculo a esse cenário.
Proposta de padrão aberto
Para enfrentar esse desafio, a Innovation Labs desenvolveu o DNSid, sistema que cria identidades para agentes de IA e vincula cada uma delas a um nome de domínio já existente, utilizando provas criptográficas para registrar a identidade ao longo do tempo. A CEO interina da Innovation Labs, Allie Kline, informou que o padrão está sendo testado com algumas grandes empresas de tecnologia e de identidade digital, cujos nomes não foram divulgados.
Cerf explicou sua motivação para integrar o projeto. “Senti que poderia ajudá-los num momento em que nomeação e identificação estão se tornando cada vez mais importantes”, declarou ao TechCrunch. “Isso é amplamente motivado pela noção de agentes de IA e pela questão de quais autoridades eles têm, de onde derivaram essas autoridades, quem é responsável pelo comportamento de um agente nesse contexto, e onde e como sua identidade é estabelecida, e por que você confiaria nela.”
O desafio da identificação é mais complexo do que parece, segundo Cerf. Agentes de IA são muito mais ativos do que domínios convencionais, e ainda não está claro qual compromisso uma organização assume ao registrar um. “Vai ser um período fascinante, e ao mesmo tempo talvez até exasperante, na evolução da internet e das coisas que dependem dela, porque a funcionalidade é dramaticamente poderosa”, afirmou.
Adoção e pressão dos usuários
Com múltiplas soluções em análise para o problema de identificação, Cerf aponta a funcionalidade como fator decisivo para a adoção em larga escala de qualquer protocolo. “A empresa X usa a tecnologia do agente Y, e a empresa A usa a tecnologia do agente C, e aí eles não interoperam entre si”, disse. “Ninguém consegue fazer tudo o que você pode querer que cada agente faça… e por isso vamos ter que contar com a pressão vinda dos usuários. Foi o que aconteceu com o TCP/IP.”
Um elemento central da proposta da Innovation Labs é justamente a ausência de qualquer plano paralelo de negócios de IA ou de propriedade sobre os dados de registro. Kline destacou a importância desse ponto. “Acho que há muita rejeição a uma grande empresa de tecnologia lançando um padrão e ficando com esses dados proprietários”, afirmou.
Sobre se a chamada economia agêntica representa o destino da internet, Cerf foi cauteloso. “Não acho que seja inevitável”, disse. “Mas o que acho inevitável é que as pessoas vão tentar fazer isso. Somos criaturas fundamentalmente preguiçosas, e se encontrarmos uma forma de ter um agente fazendo algo por nós, é muito provável que optemos por isso porque é simplesmente mais fácil.”
