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Matemáticos pedem freio no uso de IA em pesquisas

Matemáticos querem regras para evitar que a IA torne pesquisas menos transparentes e concentre poder nas big techs.
Imagem: Unsplash

Um grupo de matemáticos, cientistas da computação e historiadores divulgou a Declaração de Leiden sobre IA e Matemática. O documento ganhou força após a OpenAI anunciar, no mês passado, que uma IA resolveu o famoso problema da “distância unitária” na geometria.

A preocupação não está apenas no avanço técnico. O temor envolve transparência, revisão por pares, autoria, financiamento e o risco de empresas privadas definirem prioridades de uma área científica inteira.

O que os pesquisadores querem mudar

A declaração propõe regras para o uso de inteligência artificial em pesquisas matemáticas. Entre as medidas estão a divulgação clara do uso de IA, a revisão por pares de todos os trabalhos e mais apoio público à pesquisa acadêmica.

O objetivo é evitar que empresas com grande poder computacional ditem o ritmo da matemática. Para os autores, a área precisa manter valores que sustentam a pesquisa há décadas, como abertura, verificação e acesso amplo ao conhecimento.

Ao Scientific American, Ilka Agricola, matemática e presidente do Comitê de Publicação da União Matemática Internacional, reconhece o valor da tecnologia. “A IA pode ser extremamente útil e ajudar muito”, afirmou. Ela também vê um problema crescente. “Infelizmente, esse aspecto positivo está ficando pequeno diante da enorme confusão ao redor disso.”

Por que a IA preocupa os matemáticos

Editores de periódicos já recebem mais provas feitas por IA do que conseguem avaliar com segurança. Modelos de linguagem também podem repetir ideias humanas sem atribuição adequada.

Na matemática, uma prova humana pode ser checada por qualquer especialista com domínio suficiente. Uma prova gerada por IA pode esconder erros sutis, difíceis de detectar até para pesquisadores experientes.

Esse risco afeta a confiança. A matemática depende de encadeamentos lógicos precisos. Isso porque um erro pequeno pode comprometer uma conclusão inteira.

O conflito entre ciência aberta e interesse comercial

A matemática moderna mantém forte cultura de acesso aberto. Quase todo artigo recente da área aparece gratuitamente no arXiv.org. A Sociedade Americana de Matemática, nos EUA, também mantém um repositório curado de artigos, livros e análises.

Jim Portegies, matemático da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, nos Países Baixos, vê tensão nesse modelo. Empresas de tecnologia muitas vezes mantêm métodos e detalhes técnicos fora do alcance público.

Ele cita o caso do AlphaProof, modelo do Google DeepMind que resolveu três problemas difíceis de competições matemáticas em 2024. Os métodos só chegaram a um periódico revisado por pares mais de um ano depois.

“Recuamos para trás de portas fechadas porque agora existe muito interesse comercial”, afirmou Portegies.

O que vem agora

A declaração nasceu após uma reunião com cerca de 60 pesquisadores e formuladores de políticas no Centro Lorentz, na Universidade de Leiden, na Holanda. O grupo trabalhou no documento desde o outono passado no Hemisfério Norte.

Rodrigo Ochigame, antropólogo da IA em Leiden, afirmou que o texto exigiu debate intenso. Para ele, empresas comerciais precisam respeitar os princípios da declaração.

“Matemáticos que nunca quiseram contribuir para o desenvolvimento de IA têm seu trabalho usado para esse fim sem consentimento”, disse Ochigame. “Acho essa situação profundamente preocupante.”

A União Matemática Internacional planeja endossar a declaração. Portegies apresentará o projeto na próxima conferência da entidade, marcada para o segundo semestre.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.