Dor no joelho: cirurgia comum no menisco pode não funcionar
Uma das cirurgias ortopédicas mais comuns do mundo acaba de sofrer um duro questionamento. Um ensaio clínico de 10 anos mostrou que a meniscectomia parcial, usada para aparar parte do menisco lesionado, não melhorou sintomas nem função do joelho quando comparada a uma cirurgia placebo.
O procedimento que entrou em xeque
A meniscectomia parcial trata lesões degenerativas do menisco, uma estrutura de cartilagem que ajuda a amortecer o joelho.
Durante o procedimento, o cirurgião remove ou apara a parte danificada do menisco. A lógica é que se há dor e existe uma lesão visível, retirar a área lesionada deveria aliviar o problema.
Mas o estudo finlandês FIDELITY colocou essa ideia sob teste rigoroso. Os pesquisadores compararam pacientes que fizeram a cirurgia real com pacientes submetidos a uma cirurgia simulada.
Ou seja, o estudo permitiu separar o benefício real do procedimento da melhora que pode surgir apenas pela expectativa de tratamento.
O que aconteceu após 10 anos
Os resultados de longo prazo preocupam. Após uma década, os pacientes que fizeram a meniscectomia parcial não tiveram melhores resultados que os pacientes do grupo placebo. Na verdade, eles tenderam a evoluir pior.
O grupo operado relatou mais sintomas no joelho e pior função articular. Também apresentou maior progressão de osteoartrite e maior chance de precisar de outra cirurgia no joelho.
A osteoartrite ocorre quando a articulação sofre desgaste progressivo. No joelho, isso pode significar dor, rigidez, perda de mobilidade e limitação nas atividades do dia a dia.
Para quem sente dor e busca uma solução rápida, a mensagem da pesquisa é que uma cirurgia muito comum pode não entregar o alívio prometido em lesões degenerativas.
Por que o estudo pesa tanto
De acordo com o Science Daily, o FIDELITY incluiu 146 participantes com lesões degenerativas no menisco. Mais de 90% deles participaram da fase final de acompanhamento.
A pesquisa ocorreu em cinco hospitais, o que reforça a colaboração entre centros diferentes. Esse tipo de desenho torna os resultados mais robustos que uma observação isolada.
Teppo Järvinen, professor da Universidade de Helsinque, na Finalândia, e principal investigador do estudo, afirmou que os achados podem representar uma “reversão médica”.
A expressão descreve uma situação incômoda para a medicina: uma terapia amplamente usada acaba se mostrando ineficaz ou até prejudicial.
A dor pode não vir só do menisco
O estudo também questiona uma premissa antiga. A cirurgia parte da ideia de que a dor na parte interna do joelho vem de uma ruptura no menisco medial. Se esse raciocínio estiver certo, corrigir o menisco deveria resolver o sintoma.
Raine Sihvonen, especialista em ortopedia e traumatologia, afirma que essa suposição não resiste a uma análise crítica.
Segundo ele, o entendimento atual aponta para outro caminho. A dor em articulações, como o joelho, pode ter relação com degeneração associada ao envelhecimento.
Ou seja, a lesão no exame pode não ser a verdadeira causa da dor. Ela pode ser parte de um processo maior de desgaste articular.
Por que a cirurgia ainda segue em uso
O alerta não surgiu do nada. Estudos randomizados anteriores já tinham mostrado que a meniscectomia parcial não melhorava sintomas ou função no curto prazo, entre um e dois anos, nem no médio prazo, em cinco anos.
Mesmo assim, o procedimento continuou comum em muitos países.
Roope Kalske, pesquisador doutorando e especialista em ortopedia e traumatologia, destacou essa persistência. Para ele, a evidência já vinha apontando falta de benefício em diferentes prazos.
Järvinen também criticou a lentidão na mudança das práticas clínicas. Ele afirmou que organizações independentes e não ortopédicas recomendam há quase uma década a interrupção do procedimento.
Ainda assim, entidades como a American Academy of Orthopedic Surgeons e a British Association for Surgery of the Knee continuaram a endossar a cirurgia.
O que o paciente deve observar
O estudo não significa que toda dor no joelho tenha a mesma causa. Também não substitui avaliação médica individual.
Mas ele muda a conversa no consultório. Antes de aceitar uma cirurgia para lesão degenerativa do menisco, o paciente deve perguntar qual benefício real se espera, quais riscos existem e por que a cirurgia seria melhor que não operar.
