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A história dos anéis de Saturno pode ser mais violenta do que parecia

Estudo reforça que os anéis de Saturno podem ter surgido da destruição da lua hipotética Chrysalis há cerca de 100 milhões de anos.
Imagem: NASA/Reprodução

Pesquisadores apresentaram novas evidências de que os anéis de Saturno podem ter surgido da destruição de uma antiga lua chamada Chrysalis. Simulações indicam que a camada externa gelada dessa lua teria sido arrancada pelas forças do planeta, deixando assim um material compatível com a composição observada nos anéis.

Os anéis de Saturno podem não ser apenas uma joia do Sistema Solar. Segundo uma nova pesquisa, eles talvez sejam o que restou de uma lua desaparecida, destruída após chegar perto demais do planeta há cerca de 100 milhões de anos. A mesma catástrofe também pode ajudar a explicar por que Saturno é inclinado.

Os pesquisadores apresentaram os resultados na Lunar and Planetary Science Conference, realizada nos EUA em março, e reforçam uma hipótese que vem ganhando força nos últimos anos. No centro da ideia está Chrysalis, uma lua hipotética que teria orbitado Saturno por bilhões de anos antes de entrar em uma trajetória instável e fatal.

Uma lua perdida no centro do mistério

A proposta tenta responder a duas perguntas antigas da astronomia planetária. A primeira é por que os anéis de Saturno parecem muito mais jovens que o planeta, formado há mais de 4,5 bilhões de anos. A segunda é por que Saturno está inclinado em cerca de 26,7 graus.

De acordo com Yifei Jiao, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos EUA, esse cenário consegue explicar de forma clara a juventude dos anéis. Isso porque, mesmo sem saber se existiu um sistema anterior, a simulação ainda produz um conjunto de anéis ricos em gelo compatível com a massa dos anéis atuais.

O que teria acontecido com Chrysalis

A hipótese parte da ideia de que Chrysalis se aproximou demais de Saturno entre 100 milhões e 200 milhões de anos atrás. Nesse encontro rasante, as forças de maré do planeta teriam começado a arrancar as camadas externas da lua.

Essas forças de maré funcionam como um esticamento gravitacional. Em vez de quebrar o objeto de uma vez como uma explosão, Saturno teria puxado a lua de forma desigual até desmontar principalmente sua parte mais externa. Depois, parte desse material teria permanecido em órbita, colidido com outros fragmentos e se espalhado até formar o sistema de anéis.

Por que os anéis são quase só gelo

As simulações detalhadas feitas pela equipe mostraram um ponto importante: Saturno teria removido de forma preferencial o manto gelado de Chrysalis, enquanto boa parte do núcleo rochoso permaneceria intacta.

Esse detalhe ajuda a resolver uma das características mais intrigantes dos anéis. Eles são compostos quase totalmente por gelo de água, com muito pouca rocha. Assim, se a parte arrancada da lua era justamente sua camada externa rica em gelo, a composição observada deixa de parecer um acaso e passa a fazer sentido dentro do modelo.

A ligação com a inclinação de Saturno

O novo trabalho se apoia em um estudo de 2022 liderado por Jack Wisdom, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA. Ele já havia proposto um papel central para Chrysalis na história do planeta.

Nesse cenário, a lua teria ajudado Saturno a manter por muito tempo uma espécie de sintonia gravitacional com Netuno. Essa interação, descrita como uma ressonância, seria uma espécie de ritmo orbital em que puxões gravitacionais repetidos ajudaram a moldar a inclinação do gigante gasoso. Assim, quando a órbita de Chrysalis ficou instável, esse equilíbrio teria se rompido.

O que ainda falta descobrir

O estudo também sugere que luas grandes, como Titã, podem ter alterado bastante esse sistema ao longo do tempo. Isso porque as interações gravitacionais teriam removido até 70% da massa inicial dos anéis. Ou seja, eles podem ter sido várias vezes mais massivos no passado.

Ainda assim, a história não está completamente fechada. Porém, os cientistas seguem investigando o destino final do núcleo sobrevivente de Chrysalis e se o evento deixou marcas em outras luas geladas de Saturno. Além disso, no futuro, astrônomos podem procurar essas pistas com novas espaçonaves.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.