Por que algumas pessoas escutam um ruído que não existe?
Um zumbido grave e sem fonte aparente, ouvido dentro de casa especialmente à noite, pode ser fruto do próprio sistema auditivo, não de máquinas ou infraestrutura externas. Essa é a principal hipótese levantada por pesquisadores que investigaram o fenômeno conhecido internacionalmente como “The Hum” (ou “O Zumbido”), um som de baixa frequência relatado por pessoas em dezenas de países há décadas.
O estudo, publicado no PLOS One, foi conduzido por Markus Drexl, professor da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), junto a dois pesquisadores de doutorado e um pós-doutorando. A equipe analisou 28 pessoas na Alemanha que afirmavam ouvir um zumbido inexplicável.
O grupo testou duas hipóteses principais. A primeira era que os participantes teriam audição excepcionalmente sensível a sons de baixa frequência, captando ruídos reais que a maioria das pessoas simplesmente não percebe. A segunda era que as próprias orelhas desses indivíduos produziriam sons mensuráveis internamente, as chamadas emissões otoacústicas, subprodutos do processo de amplificação sonora da cóclea.
Nenhuma das duas hipóteses se confirmou para a maior parte dos participantes.
Audição abaixo do normal e emissões descartadas
Apenas dois dos 28 participantes apresentaram audição acima da média para sons de baixa frequência. “Mesmo que o grupo testado fosse pequeno, isso ainda significa que a hipótese de ter uma audição especialmente boa para sons de baixa frequência não se sustenta para a maioria das pessoas”, afirmou Drexl ao ScienceDaily.
Os pesquisadores também investigaram se as emissões otoacústicas, que podem ocorrer entre 500 e 5.000 Hertz, estariam na origem do problema. “Uma hipótese era que os participantes do nosso grupo poderiam ouvir emissões otoacústicas em frequências baixas. Por isso as testamos”, declarou Drexl. Os resultados foram negativos.
Com as duas alternativas descartadas, a explicação mais provável apontou para uma terceira categoria. “Existem pessoas que ouvem algo que não pode ser medido objetivamente. Acreditamos que as pessoas nessa categoria têm uma forma de zumbido de baixa frequência”, afirmou o pesquisador.
Zumbido no ouvido, não no ambiente
O tinnitus, popularmente conhecido como zumbido no ouvido, ocorre quando alguém percebe um som dentro do ouvido ou da cabeça sem que nenhuma fonte externa o produza. Ele pode ser temporário ou persistente. Inicialmente, quem o experimenta costuma interpretar o barulho como algo vindo do entorno, e só depois de mudar de ambiente percebe que o som não desaparece.
Com base nos testes e no conhecimento atual sobre audição, Drexl concluiu que a explicação mais provável para o fenômeno tem duas dimensões. Um número reduzido de pessoas que ouvem The Hum pode, de fato, ter audição de baixa frequência incomum. Para a maioria, porém, o som tem origem no próprio sistema auditivo. “Com base em nossos resultados, embora não tenhamos descartado casos de fontes sonoras físicas externas, sugerimos que o tinnitus subjetivo na faixa de baixa frequência é muitas vezes a causa de percepções de pulsações sonoras de baixa frequência”, declarou ele.
O pesquisador também apontou uma lacuna no campo. “O que sabemos sobre o sistema auditivo é baseado principalmente em como capturamos e processamos sons em frequências mais altas. Sabemos menos sobre como o sistema auditivo lida e processa sons de baixa frequência, ou infrassom”, afirmou Drexl.
The Hum ganhou notoriedade pela primeira vez em Bristol, na Inglaterra, em meados dos anos 1970, quando moradores passaram a relatar o som ao jornal Bristol Evening Post. Ao longo das décadas seguintes, registros semelhantes surgiram no Reino Unido, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, na África do Sul e em cidades europeias. Estima-se que entre 2% e 4% da população mundial experiencie o fenômeno.
