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Russos usam dois celulares para driblar bloqueios digitais

VPNs, dois celulares e mapas de papel mostram como o cerco digital russo chegou à rotina de compras, mensagens e transporte.
Imagem: Unsplash

Russos passaram a usar VPNs, múltiplos mensageiros e até dois celulares para contornar novas restrições digitais no país. O aperto afeta WhatsApp, Telegram, navegação, compras online, bancos e transporte, em um momento sensível antes da eleição parlamentar de setembro.

De acordo com a Reuters, a nova rotina digital na Rússia ficou mais trabalhosa. Uma pessoa pode ativar uma VPN para falar com amigos no WhatsApp, desligar a ferramenta para comprar uma passagem de trem e usar outro celular para responder clientes no MAX, um app estatal.

Esse comportamento é resultado da política de “soberania digital” defendida pelo governo russo. A ideia oficial prioriza serviços locais e reduz a dependência de aplicativos estrangeiros.

Para muitos usuários, a internet deixou de funcionar como uma infraestrutura fácil de usar e virou uma sequência de ajustes manuais.

VPNs viraram ferramenta de uso diário

As VPNs roteiam a conexão por servidores privados fora da Rússia. Com isso, o usuário tenta acessar serviços bloqueados ou reduz a exposição da localização real.

Em março, os cinco serviços de VPN mais populares somaram 9,2 milhões de downloads na Google Play Store. O número representa 14 vezes o volume registrado no mesmo mês do ano anterior.

Sarkis Darbinyan, ativista russo de liberdade na internet baseado em Lisboa, afirmou que nunca tinha visto uma adoção nesse ritmo.

O uso declarado de VPNs também cresceu. A fatia de russos que admitem usar a ferramenta passou de 23% em 2022 para 36% neste ano.

O segundo celular virou barreira de proteção

Parte dos usuários separa a vida digital em aparelhos diferentes. O MAX fica em um celular, enquanto outros apps pessoais continuam em outro dispositivo.

Irina, designer de interiores de 41 anos, disse que mantém o app estatal em um aparelho separado por segurança. Ela teme que a ferramenta facilite monitoramento, acusação que a VK, a dona do MAX, nega. “É um transtorno enorme, mas o que podemos fazer?”, afirmou Irina à Reuters. “Você se acostuma a ligar e desligar VPNs, alternar entre mensageiros e trocar de países virtuais ou celulares.”

Fontes próximas ao Kremlin relataram que até funcionários leais ao governo baixam VPNs e carregam mais de um telefone. Alguns removem microfone e câmera dos aparelhos com MAX instalado.

Bloqueios também afetam compras e serviços

Bancos, órgãos públicos e grandes varejistas começaram a impedir acesso de usuários com VPN ligada.

A medida coincidiu com queda de 10% no tráfego da Wildberries, equivalente russa da Amazon. Muitos consumidores não desligam a VPN para acessar o site e abandonam a compra quando a página não abre.

Em Moscou, falhas nos apps de navegação também afetaram entregas. Motoristas da Flowwow, marketplace de flores e presentes, usaram Wi-Fi de vendedores para baixar rotas até os clientes.

Durante a interrupção, as vendas de mapas de papel mais que dobraram na capital.

Governo suaviza discurso antes da eleição

O Kremlin afirma que as restrições respondem a preocupações de segurança. Dmitry Peskov, porta-voz do governo, disse que os bloqueios cairão quando a ameaça terminar.

Vladimir Putin também pediu ao governo que evite focar apenas em proibições e restrições. Ele chamou essa estratégia de contraproducente em abril.

A pressão ocorre antes da eleição parlamentar de setembro. A aprovação de Putin caiu de 75,1% em fevereiro para 65,6% em abril, segundo o instituto estatal VTsIOM. O índice agora está perto de 67%.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.