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O que a obsessão por proteína esconde no mercado

A proteína virou estrela do bem-estar, mas o excesso já mistura ciência, marketing, ansiedade alimentar e rótulos confusos.
Imagem: Unsplash

A proteína deixou de ser assunto restrito à academia e virou argumento para vender refeições, barras, doces e até bebidas. A tendência ganhou força nas redes sociais, nos aplicativos de saúde e nos supermercados, com promessas de saciedade, ganho muscular e rotina alimentar mais prática.

A moda da proteína saiu do treino

A obsessão atual tem nomes próprios. Um deles é a trend “boy kibble”, uma refeição simples feita com carne moída e arroz branco. O prato viralizou por entregar gordura, carboidrato e proteína em uma preparação barata, repetível e fácil de armazenar.

Nas redes, cada receita vem acompanhada de calorias e macronutrientes. Algumas versões prometem de 30 gramas a mais de 80 gramas de proteína por porção.

O fenômeno também aparece nos chamados “slop bowls”, tigelas pouco atraentes, ricas em proteína e pensadas mais para bater metas nutricionais do que para dar prazer à mesa.

Por que a proteína ganhou tanta força

De acordo com o The Verge, a proteína tem uma base científica real. Ela ajuda na saciedade, participa da construção e reparo muscular e contribui para tecidos como pele, ossos, unhas e cabelos.

Ela também participa da regulação hormonal, da imunidade e do transporte de oxigênio. Por isso, profissionais de saúde costumam orientar mais atenção ao consumo proteico em casos específicos.

Quem tenta perder peso pode receber orientação para combinar proteína e fibras. Pessoas com diabetes ou pré-diabetes podem usar proteína junto de carboidratos para reduzir picos de glicose. Usuários de medicamentos GLP-1 também precisam atenção para evitar perda excessiva de massa muscular.

O problema começa quando uma orientação útil vira promessa universal.

Quando saúde vira marketing

A lógica do “proteinmaxxing” (ou “maximizar o consumo de proteínas”) transforma a proteína em meta máxima. Influenciadores defendem pratos com 90 gramas de proteína e, em alguns casos, sugerem mais de 200 gramas por dia.

O benefício desse consumo alto ainda não aparece como consenso. Um estudo aponta ausência de limite superior de absorção. Outros especialistas citam capacidade de processamento entre 20 gramas e 40 gramas por vez.

Excesso de proteína pode gerar riscos, embora isso não seja comum. A pesquisa associa consumo exagerado a cálculos renais, aumento de gordura no fígado e maior risco cardiovascular, dependendo da fonte proteica.

O erro mais comum é esquecer legumes, frutas, fibras, gorduras boas e micronutrientes.

O supermercado entrou na disputa

A proteína também virou selo de marketing. Esse movimento ganhou o nome de “protein washing”.

A lógica aparece em massas de grão-de-bico, barras proteicas, waffles, pizzas congeladas, chips, doces, misturas para café e versões proteicas de produtos tradicionais.

O risco está na leitura apressada do rótulo. Um doce com proteína continua sendo um doce. Adicionar concentrado de proteína do leite não transforma um produto ultraprocessado em alimento saudável para consumo frequente.

A nova ansiedade alimentar

A busca por proteína também criou a paranoia da proteína. Consumidores passam a temer qualquer notícia sobre metais pesados em pós proteicos, calorias ocultas em barras ou rótulos difíceis de interpretar.

Um caso nos EUA das barras David ilustra essa tensão. A marca ficou famosa por prometer 150 calorias, 28 gramas de proteína, 2 gramas de gordura e zero açúcar. Uma ação coletiva alegou que testes independentes encontraram 80% mais calorias e 400% mais gordura.

A empresa afirma que os testes não consideraram o uso de EPG, um substituto de gordura que o corpo não metaboliza da mesma forma.

O que fazer agora

A recomendação prática não exige planilha complexa. Proteína importa, mas não deve apagar o resto da alimentação.

Para o consumidor, o melhor filtro é ver a lista de ingredientes, conferir fibras, observar açúcar, gordura e sódio. Um produto com mais proteína pode ser útil, mas não precisa virar regra diária.

A proteína ajuda. Porém, o exagero vende.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.