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Brasil pode virar modelo mundial contra ultraprocessados

Depois das escolas, Brasil mira ultraprocessados nos hospitais e aposta em comida local para melhorar a saúde dos pacientes.
Foto: Freepik

Hospitais brasileiros começam a testar uma mudança simples no prato, mas complexa na logística: trocar ultraprocessados por alimentos frescos, locais e preparados na hora. A iniciativa ganhou força em São Paulo desde outubro de 2023 e já inspira planos no Rio de Janeiro, além de um projeto de lei federal.

O hospital também entra na disputa pela comida de verdade

De acordo com reportagem do britânico The Guardian, todo mês, equipes de alguns dos principais hospitais de São Paulo visitam feiras com produtores de mais de 50 fazendas locais. Cozinheiros, nutricionistas, gestores, enfermeiros e médicos avaliam verduras orgânicas, pães artesanais, frutas, ervas e temperos.

A proposta não mira apenas sabor. O objetivo é retirar alimentos ultraprocessados dos cardápios hospitalares e substituir esses itens por refeições mais frescas.

A Universidade de São Paulo conduz o projeto. Para Weruska Davi Barrios, especialista em nutrição hospitalar da instituição, a mudança acontece de forma gradual. Quanto mais alimentos locais entram no plano de compras, menos ultraprocessados compõem a dieta dos pacientes.

Por que isso importa para pacientes e famílias

Ultraprocessados entraram nos hospitais porque oferecem praticidade, padronização e longa validade. Mas esse conforto operacional cobra um preço.

Um estudo de 2019 estimou que 57 mil mortes prematuras por ano no Brasil tinham relação com o consumo desses produtos.

Ana Duran, epidemiologista e professora associada da Universidade de Campinas, vê uma contradição no uso desses alimentos em hospitais. Para ela, o sistema público de saúde não deveria financiar ultraprocessados dentro de espaços dedicados ao cuidado.

O desafio, porém, não cabe apenas em uma decisão de cardápio. Hospitais precisam de cozinhas, câmaras frias, transporte desde as fazendas e treinamento para equipes sobrecarregadas.

Rio quer zerar ultraprocessados em oito anos

A ideia já ganhou apoio político fora de São Paulo. Daniel Soranz, secretário de Saúde do Rio de Janeiro, afirmou que a cidade quer eliminar alimentos processados de todos os hospitais em até oito anos.

O plano prevê preparar refeições no próprio local e substituir contratos antigos conforme eles vencerem. Em dois anos, a meta é que 30% dos hospitais do Rio deixem de usar ultraprocessados.

A pauta também avança em Brasília. Um projeto de lei que proíbe ultraprocessados nas refeições hospitalares tramita no Senado.

Se avançar, o Brasil pode criar uma das primeiras políticas nacionais desse tipo. Outros hospitais pelo mundo já fizeram mudanças próprias, como o Hayek hospital, em Beirute, no Líbano, que adotou uma dieta baseada em vegetais.

O precedente veio das escolas

O movimento nos hospitais se apoia em uma experiência brasileira recente: a merenda escolar. Desde 2020, governos federal e locais apertaram regras contra ultraprocessados nas escolas.

Uma lei mais recente exige que 45% dos recursos da alimentação escolar comprem comida de agricultores locais. A partir de 2026, ultraprocessados não poderão passar de 10% de qualquer cardápio escolar.

No Rio de Janeiro e no Ceará, esses produtos já saíram completamente das escolas.

Na escola municipal EDI Gabriela Mistral, no Rio, por exemplo, biscoitos industrializados, pães embalados e achocolatados prontos deram lugar a arroz, feijão, frutas, aveia e pão caseiro.

A resistência não vem só da indústria

A transição enfrenta resistência prática e cultural. Diretores de escola questionaram custos e armazenamento. Cozinheiras temiam que crianças recusassem alimentos sem o sabor intenso dos ultraprocessados.

Pais também demonstraram receio. Duran relata que muitas mães enxergam esses produtos como solução cotidiana diante da falta de tempo para cozinhar.

De acordo com pesquisas, crianças brasileiras de 5 a 9 anos com excesso de peso passaram de 13,4% em 1989 para 33,4% em 2008.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo principalmente sobre ciência, tecnologia e cultura nerd e geek. Entusiasta da astronomia, acompanha temas ligados à exploração espacial e é fã de Star Trek.