Formigas doentes “pedem eutanásia” para salvar a colônia
Formigas jovens da espécie Lasius neglectus, quando infectadas por fungos patogênicos, emitem sinais químicos específicos ainda dentro de seus casulos para alertar a colônia sobre sua condição terminal. A descoberta foi feita por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria. Ela revela um novo comportamento altruísta desses insetos quando expostos ao fungo Metarhizium brunneum.
Os cientistas identificaram que as pupas de formigas operárias liberam um odor corporal modificado quando infectadas, sinalizando às formigas adultas próximas que devem sacrificar as pupas doentes para evitar a propagação da infecção pela colônia. Conforme a Popular Science, este comportamento representa uma forma sofisticada de comunicação química que beneficia a sobrevivência coletiva das formigas.
Este comportamento está relacionado ao forte instinto evolutivo das formigas de proteger o coletivo. Esses insetos são conhecidos por práticas altruístas, como o distanciamento social quando doentes e a disposição para morrer protegendo sua rainha de invasores.
Durante os experimentos realizados nos últimos meses, a equipe introduziu o fungo patogênico nas colônias e monitorou os insetos tanto individualmente quanto em cenários de grupo. As formigas operárias foram o principal foco do estudo, pois as pupas destinadas a se tornarem rainhas não apresentaram o mesmo comportamento devido às suas defesas imunológicas mais fortes.
Os cientistas observaram o fenômeno em colônias que funcionam como superorganismos, populações cujos indivíduos existem exclusivamente para servir ao coletivo. Em alguns casos, essas colônias podem abrigar mais de 500 mil formigas, operando como uma forma de inteligência coletiva.
Sinal químico preciso
Os pesquisadores verificaram que o sinal químico emitido pelas pupas infectadas ocorre apenas quando formigas adultas estão próximas. As pupas não expostas ao patógeno não emitiram o mesmo sinal, indicando que não se trata de um efeito colateral do sistema imunológico.
A análise da composição química do odor mostrou características específicas que garantem a eficácia do alerta sem prejudicar formigas saudáveis.
“Ao alertar a colônia sobre sua infecção mortal, formigas terminalmente doentes ajudam a colônia a permanecer saudável e produzir colônias filhas. O que indiretamente transmite os genes do sinalizador para a próxima geração”, explicou Erika Dawson, comportamentalista animal do ISTA e coautora do estudo.
Thomas Schmitt, coautor do estudo e ecologista químico da Universidade de Würzburg, na Alemanha, acrescentou: “O cheiro não pode simplesmente se difundir pela câmara do ninho. Mas deve estar diretamente associado à pupa doente. Consequentemente, o sinal não consiste em compostos voláteis, mas é composto por compostos não voláteis na superfície corporal da pupa.”
Coordenação entre indivíduo e colônia
Porém, ainda não se sabe se outras espécies de formigas apresentam comportamento semelhante ou se existem outros patógenos que desencadeiam o mesmo tipo de resposta.
Assim, a partir desta descoberta, os cientistas continuarão investigando como outros insetos sociais podem ter desenvolvido mecanismos semelhantes de proteção coletiva contra doenças.
“Esta coordenação precisa entre o nível individual e o da colônia. É o que torna este sinal altruísta de doença tão eficaz”, afirmou Sylvia Cremer, ecologista do ISTA e coautora do estudo.
