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IA pode deixar ricos ainda mais ricos, diz novo estudo

Pesquisa com 4 mil profissionais nos EUA e Reino Unido revela que 60% dos mais bem remunerados utilizam ferramentas diariamente contra 16% dos que ganham menos.
Imagem: Unsplash/Reprodução

O Financial Times e a Focaldata realizaram pesquisa com 4 mil profissionais nos Estados Unidos e no Reino Unido. O levantamento aponta diferenças expressivas na adoção de ferramentas de inteligência artificial entre grupos de renda. Profissionais com salários elevados utilizam a tecnologia com frequência superior aos trabalhadores de menor remuneração.

A pesquisa identificou que profissionais mais bem remunerados usam IA diariamente em proporção quatro vezes maior que trabalhadores de baixa renda. Entre os profissionais do topo salarial, a utilização diária atinge mais de 60%.

Por outro lado, entre trabalhadores com rendimentos menores, apenas 16% fazem uso diário dessas ferramentas. Os dados integram o primeiro rastreador mensal sobre força de trabalho e IA produzido pelo FT e pela Focaldata, conforme reportagem publicada pelo Financial Times.

Homens x mulheres

O estudo revelou divisão de gênero no uso da tecnologia. Homens apresentam probabilidade superior de utilizar ferramentas de IA em setores como tecnologia, educação e varejo, por exemplo. Fabien Curto Millet, economista-chefe do Google, informou que mulheres têm 20% menos probabilidade de usar IA do que homens.

Advogados, contadores e desenvolvedores de software utilizam essas ferramentas em taxas similares, independentemente do nível hierárquico. As principais diferenças de uso ocorrem entre ocupações específicas, não dentro delas.

Além disso, os trabalhadores que mais utilizam IA no trabalho estão na faixa dos 30 anos com maior tempo de permanência nas empresas.

Desigualdade salarial

A relação entre remuneração, educação e uso de IA sugere que a tecnologia pode aumentar a desigualdade salarial. A ferramenta eleva a produtividade dos trabalhadores no topo da hierarquia, mas não daqueles na base. Economistas apontaram que trabalhadores tecnicamente qualificados e com maior autonomia são naturalmente os primeiros a adotar tecnologias complexas.

Daron Acemoglu, laureado com o Prêmio Nobel de Economia e professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, explicou que existe contradição entre o discurso e a realidade. “A retórica por aí é que as ferramentas vão democratizar. Mas a realidade é que… você precisa de um certo grau de educação, habilidades abstratas e quantitativas, familiaridade com computadores e programação para usar os modelos”, afirmou.

Chris Pissarides, professor de economia na London School of Economics e também ganhador do Prêmio Nobel, ofereceu outra perspectiva. “Quanto mais inteligente a tecnologia que inventamos, mais sua inteligência importa”, disse Pissarides. “Quando a tecnologia que inventávamos era mais simples, seu QI não importava muito. Mas agora importa cada vez mais com essas tecnologias mais avançadas.”

Daron Acemoglu foi enfático sobre as consequências da tecnologia. “A IA vai aumentar a desigualdade entre trabalho e capital. Isso é quase certo. Eu diria que está nos preparando para uma… bagunça.”

Treinamento corporativo

Pesquisa da equipe de Curto Millet em 2025 mostrou que uma sessão de treinamento em IA para trabalhadores do Reino Unido aumentou a adoção entre mulheres acima de 55 anos. “A intervenção levou a uma triplicação do uso diário”, disse Curto Millet. Os dados do FT mostram que o treinamento corporativo é o maior impulsionador individual do uso de IA no trabalho.

As causas da divisão de gênero no uso de inteligência artificial permanecem incertas, segundo Fabien Curto Millet. Curto Millet apontou que existe espaço para fechar a lacuna de gênero, citando a pesquisa de sua equipe que demonstrou o impacto positivo de sessões de treinamento.

Carl Benedikt Frey, professor no Oxford Internet Institute e historiador econômico, observou que o mesmo padrão apareceu durante a revolução da computação pessoal. A disparidade se equilibrou à medida que o uso de computadores se tornou generalizado. “A desigualdade vai se resolver com o tempo”, disse Frey. “Depende de quanto tempo a lacuna leva para fechar, se for uma década ou duas, então é mais preocupante.”

As descobertas reforçam a preocupação de que a inteligência artificial pode corroer a base da pirâmide de carreira. Parte do trabalho anteriormente realizado por funcionários juniores agora é executado por IA sob comando de trabalhadores seniores. Novos funcionários ficam incapazes de desenvolver habilidades e expertise.

Mercado de trabalho

Google e OpenAI reconheceram dados recentes que mostram uma desaceleração no mercado de trabalho para início de carreira. As empresas apontaram fatores macroeconômicos, e não a IA, como a causa principal.

Ronnie Chatterji, economista-chefe da OpenAI, afirmou que os achados são consistentes com as próprias observações da fabricante do ChatGPT. A IA complementa a proficiência, permitindo assim que especialistas estabelecidos sejam mais produtivos.

Por fim, sobre a necessidade de preparação, Chatterji destacou: “Temos que voltar ao sistema educacional e pensar sobre como vamos estabelecer o tipo de incentivos para as pessoas adquirirem esse tipo de expertise, pensamento crítico. Você [precisa] da expertise profunda versus ser um substituto… onde você está terceirizando o pensamento para uma máquina.”

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