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Cães que “cantam” podem explicar de onde veio a música

Estudo indica que alguns cães ajustam o uivo ao tom da música e podem ajudar a explicar raízes evolutivas da musicalidade.
Imagem: Unsplash/Reprodução

Vídeos de cães “cantando” com músicas nas redes sociais podem parecer apenas diversão, mas um novo estudo sugere que há algo mais sério por trás desse comportamento. Pesquisadores liderados por Aniruddh Patel, da Tufts University, nos Estados Unidos, observaram que alguns cães da raça samoieda ajustam a altura do uivo de acordo com a música tocada. O resultado aponta para uma capacidade vocal que pode ter sido herdada dos lobos e que ajuda a discutir as origens evolutivas da musicalidade.

A descoberta chama atenção porque toca em uma pergunta antiga: a habilidade de acompanhar sons em diferentes tons depende só da linguagem humana ou pode ser mais antiga que isso? Nesse caso, os cães oferecem uma pista curiosa.

O que os pesquisadores queriam descobrir

De acordo com a New Scientist, a equipe partiu de observações feitas com lobos. Em matilhas, o uivo coletivo lembra um tipo de coral áspero e prolongado. Biólogos já propuseram que cada lobo tenta emitir um tom diferente, o que criaria a impressão de um grupo maior e poderia intimidar ameaças.

Testar isso diretamente na natureza é difícil. Por isso, os cientistas recorreram a cães domésticos. A ideia foi simples: verificar se eles apenas reagem de forma automática à música ou se realmente percebem o tom e tentam ajustar a própria voz.

Como o teste funcionou

Os pesquisadores pediram a alguns tutores que gravassem seus cães uivando junto com suas músicas preferidas. Depois, essas mesmas faixas foram tocadas em versões três semitons acima e três semitons abaixo. O objetivo era ver se os animais mudariam o próprio uivo quando o tom da música mudasse.

A análise focou em duas raças antigas, samoieda e shiba inu, consideradas mais próximas de seus ancestrais lobos do que muitas raças modernas. Para reforçar a confiabilidade estatística, cada cão precisava produzir ao menos 30 uivos, com duração mínima de 1 segundo, em cada versão modificada da música.

O que os cães mostraram

Os quatro samoiedas analisados demonstraram sensibilidade ao tom das músicas. Em todos os casos, eles ajustaram suas vocalizações de forma consistente quando a faixa mudava de tom, embora não tenham acertado exatamente a nota tocada.

Isso importa porque sugere que o animal não estava apenas “disparando” um uivo por reflexo. Havia algum tipo de relação entre o que ele ouvia e o que tentava vocalizar.

Patel interpreta esse comportamento como um sinal de flexibilidade vocal. Ou seja, o cão parece tentar construir uma resposta sonora em relação ao estímulo que escuta, em vez de repetir um padrão fixo.

Já os dois shiba inus do estudo não mostraram o mesmo desempenho. Segundo Patel, isso pode refletir variação genética dentro das próprias raças antigas. Ele também admite que uma amostra maior poderia revelar mais nuances.

O que isso pode dizer sobre a música humana

Os resultados alimentam uma discussão importante. Alguns teóricos defendem que o canto humano surgiu a partir do controle fino da voz exigido pela fala. Só que, se cães também conseguem ajustar o tom sem apresentar outras formas de aprendizado vocal complexo, talvez a linguagem não tenha sido um requisito obrigatório para o surgimento dessa habilidade.

Ou seja, a capacidade e o impulso de coordenar tons com outros indivíduos podem ter raízes evolutivas bem antigas.

Ainda falta responder uma pergunta

Os cientistas também tentam entender por que os cães entram nessa “performance”. Pelas gravações, Patel percebeu que os animais pareciam genuinamente envolvidos com a música, olhando para longe e não apenas para os tutores em busca de recompensa.

A hipótese é que a música funcione para eles como um sinal parecido com um uivo social, despertando a vontade de se juntar ao som.

A pesquisadora Buddhamas Pralle Kriengwatana, da KU Leuven, na Bélgica, considerou o resultado intrigante, mas afirmou que gostaria de ver amostras mais variadas, com comparação entre raças antigas e modernas. Ainda assim, a ideia de que cães possam oferecer pistas sobre as origens profundas da musicalidade humana torna esse estudo difícil de ignorar.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.