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Vírus oculto no intestino pode estar ligado ao câncer colorretal

Pesquisadores identificaram vírus inédito que aparece com maior frequência em pessoas com a doença.
Imagem: Unsplash/Reprodução

Pesquisadores da Universidade do Sul da Dinamarca e do Hospital Universitário de Odense, na Dinamarca, identificaram um vírus nunca antes descrito pela ciência. O vírus estava dentro de uma bactéria comum do intestino humano e aparece com maior frequência em pessoas com câncer colorretal. A descoberta resultou da análise de dados de aproximadamente dois milhões de pessoas na Dinamarca.

O vírus identificado é um bacteriófago que infecta a Bacteroides fragilis, bactéria presente no sistema digestivo. Nos pacientes que posteriormente desenvolveram câncer colorretal, essa bactéria apresentou probabilidade muito maior de carregar esse vírus específico. Conforme reportado pela ScienceDaily, a descoberta representa um avanço significativo na compreensão dos fatores microbiológicos associados ao desenvolvimento do câncer colorretal.

Contradição científica motivou a pesquisa

A investigação, publicada na Communications Medicine, buscou resolver uma contradição que persistia há anos. Os pesquisadores associaram a Bacteroides fragilis ao câncer colorretal. Porém, essa conexão era difícil de explicar porque a mesma bactéria também existe na maioria dos indivíduos saudáveis.

“Tem sido um paradoxo que encontramos repetidamente a mesma bactéria em conexão com o câncer colorretal, enquanto ao mesmo tempo ela é uma parte completamente normal do intestino em pessoas saudáveis”, diz Flemming Damgaard, médico e doutor no Departamento de Microbiologia Clínica do Hospital Universitário de Odense e da Universidade do Sul da Dinamarca.

Além disso, a equipe investigou diferenças dentro da própria bactéria para entender o que diferenciava as bactérias presentes em pacientes com câncer daquelas em pessoas sem a doença. Nos últimos anos, cientistas têm focado cada vez mais no microbioma intestinal, o vasto ecossistema de microrganismos que vivem no sistema digestivo.

Estudo começou com dados dinamarqueses

A descoberta começou com dados de um grande estudo populacional dinamarquês. Os pesquisadores focaram em pacientes que haviam sofrido infecções sanguíneas graves causadas pela Bacteroides fragilis. Isso porque uma pequena parcela desses indivíduos foi diagnosticada com câncer colorretal em questão de semanas após as infecções.

“Foi em nosso material dinamarquês que detectamos primeiro um sinal. Isso nos deu uma hipótese concreta, que pudemos então investigar em conjuntos de dados maiores”, diz Flemming Damgaard.

Os cientistas usaram dados coletados do sistema de saúde dinamarquês para esta pesquisa. 

Padrão confirmado em três continentes

Os pesquisadores testaram se o padrão se mantinha globalmente. Eles analisaram amostras fecais de 877 indivíduos distribuídos pela Europa, Estados Unidos e Ásia. Os resultados foram consistentes entre as diferentes populações estudadas.

“Foi importante para nós examinar se a associação poderia ser reproduzida em dados completamente independentes. E pôde”, afirma Flemming Damgaard.

Além disso, pessoas com câncer colorretal apresentaram aproximadamente o dobro de probabilidade de carregar esses vírus no intestino. Análises preliminares sugerem que certos marcadores virais poderiam identificar cerca de 40% dos casos de câncer, enquanto a maioria dos indivíduos saudáveis não os carrega.

O câncer colorretal está entre os cânceres mais comuns em países ocidentais e permanece uma das principais causas de mortes relacionadas ao câncer. Até 80% do risco de câncer colorretal é considerado influenciado por fatores ambientais, incluindo os microrganismos no intestino.

Relação entre vírus e doença ainda não está clara

O estudo mostra uma forte ligação estatística entre o vírus e o câncer colorretal, mas não prova que o vírus causa a doença.

“Ainda não sabemos se o vírus é uma causa contribuinte, ou se é simplesmente um sinal de que algo mais no intestino mudou”, afirma Flemming Damgaard.

Se o vírus altera o comportamento da bactéria, poderia modificar o ambiente intestinal de maneiras que influenciam o risco de câncer. Essa possibilidade está sendo explorada agora.

“Não é apenas a bactéria em si que parece interessante. É a bactéria em interação com o vírus que ela carrega”, explica Flemming Damgaard.

O microbioma intestinal é incrivelmente complexo, contendo milhares de espécies bacterianas e ainda mais variação genética. Essa complexidade tornou difícil identificar o que separa indivíduos saudáveis daqueles que desenvolvem a doença.

“O número e a diversidade de bactérias no intestino é enorme. Anteriormente, era como procurar uma agulha no palheiro. Em vez disso, investigamos se algo dentro das bactérias (ou seja, vírus) poderia ajudar a explicar a diferença”, diz Flemming Damgaard.

Descoberta pode levar a testes de triagem

“Descobrimos um vírus que não foi descrito anteriormente e que parece estar intimamente ligado às bactérias que encontramos em pacientes com câncer colorretal”, afirma Flemming Damgaard.

A descoberta pode levar a futuros testes de triagem que detectem o risco de câncer mais precocemente. Os pesquisadores planejam investigar se o vírus pode ser usado para identificar indivíduos com risco aumentado.

“No curto prazo, podemos investigar se o vírus pode ser usado para identificar indivíduos com risco aumentado”, diz Flemming Damgaard.

Os pesquisadores acreditam que no futuro pode ser possível rastrear esses vírus recém-identificados em exames de triagem. Atualmente, o rastreamento do câncer colorretal frequentemente envolve testes de fezes que procuram sangue oculto.

“Ainda não sabemos por que o vírus está presente, mas estamos investigando se ele contribui para o desenvolvimento do câncer colorretal”, diz Flemming Damgaard.

Os pesquisadores enfatizam que este trabalho ainda está em seus estágios iniciais, e ainda longe da prática clínica.

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