2023 © Copyright 404 - Todos os direitos reservados

Tempestades marcianas podem estar secando o planeta

Estudo indica que tempestades regionais de poeira em Marte podem lançar vapor d’água ao alto da atmosfera e acelerar sua perda para o espaço.
Imagem: NASA/Reprodução

Marte pode ter perdido parte de sua água de uma forma mais violenta do que parecia. Um novo estudo indica que tempestades de poeira intensas (mesmo quando regionais e não globais) conseguem arremessar vapor d’água para camadas altas da atmosfera marciana, onde ele pode se quebrar e escapar ao espaço. A descoberta acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça de como um planeta que já teve muita água virou o deserto frio e seco que vemos hoje.

A conclusão vem de uma pesquisa internacional publicada na revista Communications: Earth & Environment. Segundo os autores, o achado chama atenção porque esse processo foi observado durante o verão do hemisfério norte de Marte, uma estação que antes não era vista como protagonista nesse tipo de perda de água.

Um Marte antigo muito diferente do atual

Hoje, Marte é conhecido por sua paisagem árida e gelada. Mas sua superfície conta outra história. Canais antigos, minerais alterados pela água e outras marcas geológicas indicam que o planeta já teve água em abundância e um ambiente muito mais ativo.

Entender como esse mundo mais úmido se transformou no Marte atual continua sendo uma das grandes perguntas da ciência planetária. Os cientistas já conheciam alguns mecanismos capazes de retirar água do planeta, mas uma parte relevante dessa perda ainda não estava bem explicada.

É justamente nesse ponto que o novo estudo entra. Em vez de olhar apenas para grandes tempestades que envolvem o planeta inteiro, os pesquisadores mostraram que eventos menores também podem ter um papel importante.

Tempestades menores, efeito maior do que o esperado

Até agora, muitos estudos ligavam a perda de água em Marte às enormes tempestades globais de poeira. O novo trabalho mostra que tempestades regionais também podem ser muito eficientes ao empurrar vapor d’água para altitudes mais elevadas, onde sua fuga fica mais fácil.

Esse detalhe muda a escala do problema. Em vez de depender apenas de eventos raros e planetários, Marte pode estar perdendo água também em episódios mais curtos e localizados, desde que sejam suficientemente intensos.

Os pesquisadores observaram em 2022 e 2023 um aumento acentuado de vapor d’água na atmosfera intermediária ligado a uma tempestade incomum desse tipo.

Vapor d’água chegou a níveis muito acima do normal

Durante esse evento, a quantidade de água em certas altitudes chegou a até dez vezes o valor normal. Segundo o estudo, esse salto não havia sido visto em anos anteriores e também não era previsto pelos modelos climáticos existentes.

Esse ponto é central porque mostra que a atmosfera marciana pode reagir de modo mais extremo do que se pensava. É como se uma tempestade regional abrisse uma espécie de elevador temporário, levando água para camadas onde ela normalmente não estaria em tanta quantidade.

Uma vez ali em cima, a situação muda. A molécula de água pode ser quebrada, e parte desse material pode escapar com mais facilidade para o espaço.

O hidrogênio entregou a pista da fuga

Pouco depois, os cientistas detectaram um grande aumento de hidrogênio na exobase, a fronteira onde a atmosfera de Marte faz transição para o espaço. Os níveis de hidrogênio chegaram a 2,5 vezes os registrados em anos anteriores para a mesma estação.

Esse dado tem peso porque o hidrogênio funciona como um rastreador indireto da perda de água. Quando moléculas de água se separam, o hidrogênio liberado oferece uma pista concreta de quanto desse material pode estar escapando.

Ou seja, observar mais hidrogênio nessa região é como encontrar o rastro deixado por água que começou a se desfazer e a abandonar o planeta.

O que isso muda na história climática de Marte

Os autores afirmam que os resultados revelam o impacto desse tipo de tempestade na evolução climática marciana. Além disso, eles abrem um novo caminho para entender como o planeta perdeu boa parte de sua água ao longo do tempo.

Além disso, o estudo destaca que episódios curtos, mas intensos, podem ter relevância real nessa transformação. Isso amplia a visão dos cientistas sobre o problema. A perda de água em Marte pode não ter dependido só de processos lentos e contínuos, mas também de surtos atmosféricos capazes de acelerar o escape.

O resultado não fecha o caso por completo, mas aproxima os pesquisadores de uma resposta para um dos maiores mistérios do planeta vermelho: para onde foi tanta água. Agora, a imagem que emerge é a de um Marte que não secou apenas aos poucos, mas que talvez também tenha sido esvaziado por tempestades capazes de empurrar parte dessa água para o espaço.

Assine a newsletter do Giz Brasil

Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.