2023 © Copyright 404 - Todos os direitos reservados

Cientistas criam método para medir alegria em animais

Projeto analisa comportamentos, vocalizações e marcadores biológicos para identificar emoções positivas em espécies não-humanas.
Imagem: Wikimedia Commons/Reprodução

Cientistas dos EUA estão desenvolvendo métodos para identificar e quantificar cientificamente emoções positivas em animais. O projeto, que ganhou força recentemente, visa superar a histórica relutância da comunidade científica em reconhecer essas experiências em espécies não-humanas.

Diferentemente da dor animal, que já é amplamente aceita e estudada pela ciência, as emoções positivas permaneceram majoritariamente ignoradas por serem consideradas difíceis de medir objetivamente. De acordo com a Vice, muitos pesquisadores temiam estar projetando qualidades humanas em criaturas não-humanas, caindo no antropomorfismo.

Desafios na medição da alegria animal

A resistência ao estudo da alegria animal ocorreu porque, ao contrário da dor e do medo, que apresentam marcadores fisiológicos facilmente observáveis como picos hormonais ou tensão corporal, a alegria se manifesta de maneiras mais sutis e variadas. Além disso, as expressões de contentamento podem diferir significativamente entre espécies e até entre indivíduos do mesmo grupo.

Para superar esses obstáculos, os cientistas criaram o projeto “medidor de alegria“, tradução do termo “joy-o-meter“. Apesar do nome descontraído, trata-se de uma iniciativa séria para estabelecer métricas de comportamentos associados à felicidade animal.

Metodologia e primeiros sujeitos de estudo

O sistema desenvolvido inclui a análise de sinais comportamentais, vocalizações, testes de otimismo e marcadores biológicos que possam indicar momentos breves mas intensos de prazer.

Os grandes primatas foram os primeiros sujeitos analisados, pois chimpanzés demonstram comportamentos como risos, abraços e ofegação durante brincadeiras e reencontros. Os bonobos, por sua vez, respondem com chamados excitados ou acenos de cabeça quando recebem inesperadamente grandes quantidades de uvas.

A Fundação Templeton começou a estudar papagaios em 2024, especificamente a espécie Quia da Nova Zelândia, conhecida por brincar aparentemente pelo simples prazer. Os pesquisadores monitoram temperatura corporal, hormônios e vocalizações desses animais para distinguir alegria genuína de estresse.

Descobertas e implicações

Durante os experimentos, a manteiga de amendoim mostrou-se particularmente útil nas observações com as aves Quia. Enquanto cenouras provocam reações indiferentes nesses papagaios, a manteiga de amendoim desencadeia intensas vocalizações de entusiasmo.

Os cientistas não afirmam que animais experimentam felicidade exatamente como humanos. Entretanto, as evidências crescentes sugerem que eles vivenciam algo significativo em termos emocionais positivos, o que os pesquisadores chamam de “afeto positivo”.

O desenvolvimento de uma compreensão mais profunda sobre a felicidade animal pode transformar diversos campos de pesquisa e observação, incluindo esforços de conservação. Adicionalmente, pode oferecer aos humanos uma visão mais completa sobre o que constitui uma vida boa, não apenas para os animais, mas também para nossa própria espécie.

Durante toda a existência humana, nos preocupamos em responder grandes questões filosóficas sobre o que torna a vida significativa, mas quase sempre limitamos essas reflexões à nossa própria experiência. Os avanços nessa área de pesquisa indicam que podemos começar a considerar também as experiências dos animais nessas reflexões.

Assine a newsletter do Giz Brasil