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Implante intraocular amplia perspectivas de tratamento da toxoplasmose ocular
Um implante biodegradável capaz de liberar antibiótico diretamente no interior do olho está abrindo novas possibilidades para o tratamento da toxoplasmose ocular, doença que pode comprometer gravemente a visão. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e da Fundação Ezequiel Dias (Funed), o dispositivo foi testado em pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto.
O primeiro caso humano tratado com o implante foi publicado no American Journal of Ophthalmology Case Reports em 2021. Os resultados mais recentes, de um ensaio clínico de fase 1 serão apresentados em outubro próximo no Congresso da Academia Americana de Oftalmologia envolvendo cinco pacientes intolerantes ou refratários ao tratamento oral. No caso isolado, a paciente teve recuperação visual e cicatrização completa da lesão; entre os cinco mais recentes, três apresentaram melhora da visão e dois estabilização da doença, sem sinais de toxicidade ocular.
A toxoplasmose é uma infecção causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, geralmente transmitida por água, alimentos contaminados ou carne mal cozida. Embora na maioria das pessoas passe despercebida, quando alcança o olho pode inflamar a retina e a coroide (camada vascular da parede do globo ocular) e provocar lesões que, se próximas ao nervo óptico ou à mácula, podem levar à perda visual permanente. “O Toxoplasma gondii pode comprometer o tecido responsável por captar a luz, que é a retina. Se compararmos o olho com uma máquina fotográfica, a retina seria o filme. E quando a infecção atinge regiões centrais, próximas ao nervo óptico e à mácula, o comprometimento pode ser profundo, chegando a causar cegueira legal”, explica o professor da FMRP Rodrigo Jorge. Segundo ele, quando a inflamação atinge áreas periféricas da retina, o impacto tende a ser menor. Mas lesões próximas à visão central exigem tratamento imediato e eficaz para evitar sequelas permanentes.
Inovação
Os medicamentos utilizados para o tratamento da toxoplasmose ocular, lembra o professor Rodrigo Jorge, sempre foram muitos e com efeitos colaterais importantes. “São fármacos como a sulfadiazina, que podem provocar desde náuseas e vômitos até reações alérgicas severas. Muitos desses efeitos fazem com que os pacientes parem de usar a medicação”, relata. Ele lembra que há uma década eram necessários pelo menos quatro medicamentos, número que caiu para dois ou três atualmente, mas ainda assim em esquemas prolongados e caros. “O paciente tem que utilizar durante 35 a 45 dias vários comprimidos, e alguns deles possuem preço que dificulta o acesso para a maioria da população. Aí temos um insucesso terapêutico logo de cara, porque ele simplesmente não consegue aderir ao tratamento”, observa.

Foi nesse cenário que surgiu a ideia de criar um implante de clindamicina, antibiótico eficaz contra o parasita. “O nosso grupo teve a ideia de desenvolver um implante da principal droga para o tratamento da toxoplasmose. Esse implante é uma espécie de comprimido que libera a medicação dentro da cavidade vítrea, onde está a retina, principal tecido acometido pelo parasita”, explica.
O professor destaca ainda a lógica da combinação terapêutica. “No protocolo atual nós injetamos a clindamicina na forma aquosa, como uma dose de carregamento para começar a combater a infecção imediatamente, e no mesmo tempo cirúrgico colocamos o implante. Ele então começa a liberar o antibiótico de forma contínua e protege a retina do paciente por um período que varia de três a seis meses.”
O primeiro caso relatado no trabalho publicado envolveu uma paciente com intolerância severa às drogas convencionais. “Ela tinha reação alérgica aos medicamentos tradicionais e, para o tratamento, oferecemos a oportunidade de participar do estudo. O resultado foi excelente: visão recuperada e lesão completamente cicatrizada. Hoje acreditamos que a taxa de recorrência, que pode chegar a 25% em cinco anos, será menor com o uso do implante.” Rodrigo acrescenta que a vantagem em relação às terapias orais é ampla. “A aderência ao tratamento é de 100%. O paciente não precisa comprar o remédio, não sofre com efeitos colaterais sistêmicos, e o organismo como um todo não é exposto à droga. Ela é liberada em quantidade suficiente apenas para tratar a infecção dentro do olho.”
Mais recentemente, outros cinco pacientes intolerantes ou refratários ao tratamento oral receberam o implante, três mostraram melhora visual e dois a estabilização da doença. Nenhum apresentou toxicidade ocular. O implante permaneceu visível no interior do olho entre três e seis meses, tempo em que protegeu contra novas inflamações

Duas décadas de pesquisas
O professor Armando Cunha, da UFMG, lembra que o implante de clindamicina é fruto de duas décadas de pesquisas com implantes produzidos com polímeros biodegradáveis. “Esses materiais foram desenvolvidos inicialmente para fios de sutura absorvíveis e hoje são amplamente utilizados em sistemas de liberação controlada de fármacos. Ao entrar em contato com a água presente nos tecidos, eles se degradam em água e gás carbônico, produtos naturalmente eliminados pelo organismo”, explica. Ele destaca a importância da pesquisa acadêmica. “A tese de doutorado de Gabriela Cunha foi decisiva, fornecendo provas de conceito e dados pré-clínicos que sustentaram a aplicação em pacientes. A colaboração com a equipe da USP tem sido absolutamente fundamental. Nossa expertise está no desenvolvimento de medicamentos, mas é a clínica médica que identifica as reais necessidades terapêuticas. Sem essa parceria, dificilmente teríamos ultrapassado as fases preliminares.”

Cunha ressalta ainda a relevância social da pesquisa. “O impacto social e clínico para os pacientes incluídos no estudo, que apresentavam intolerância ou falha ao tratamento oral convencional, é extremamente significativo. Essa nova abordagem oferece uma possibilidade real de controle da doença, até então considerada praticamente sem alternativas terapêuticas, expondo os pacientes ao risco iminente de perda da visão.”
Sobre os desafios enfrentados ao longo do caminho, Cunha diz que foi obter recursos financeiros, já que esse tipo de estudo envolve altos custos, além de contar com pesquisadores dispostos a conduzir pesquisas de elevada complexidade, que exigem experimentação animal. “Embora delicada, essa etapa é insubstituível nesse campo e deve continuar sendo necessária ainda por muito tempo.”
Rodrigo Jorge acredita que o futuro do tratamento da toxoplasmose ocular será marcado pelo uso de implantes. “Eu acredito que no futuro todo o tratamento será baseado em injeções de antibióticos em solução aquosa para um combate inicial e, depois, na implantação desses dispositivos. Isso garantirá maior eficácia e menor risco de recorrência”, prevê.
Já o professor Cunha aponta para horizontes ainda mais amplos. “A produção de implantes para uso clínico mais amplo, incluindo aplicações em outras doenças oculares, é uma das prioridades atuais do grupo. Já desenvolvemos 13 tipos diferentes de implantes e trabalhamos para que, em breve, eles possam ser incorporados ao SUS.” Ele acrescenta que está em andamento a criação de uma estrutura inédita no Brasil. “Estamos em fase de criação de uma unidade de pesquisa inteiramente dedicada ao desenvolvimento de medicamentos e materiais de uso oftálmico, com certificação de boas práticas de fabricação. Essa estrutura, prevista para 2026, viabilizará avanços científicos e tecnológicos sem precedentes no País.”
Toxoplasmose ocular no Brasil
A toxoplasmose ocular é uma inflamação causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, que atinge a retina e a coroide, tecidos essenciais para a visão. Quando a lesão ocorre em regiões centrais do olho, próximas à mácula ou ao nervo óptico, pode levar à perda visual permanente.
Segundo o professor João Marcello Fortes Furtado, da FMRP e também um dos autores dos estudos apresentados sobre o implante, ainda não há um levantamento nacional consolidado sobre a prevalência da doença. Essa prevalência varia em diferentes regiões e países, sendo mais elevada e agressiva na América do Sul. “Os estudos feitos em diferentes locais usam métodos diferentes, o que dificulta a comparação. Na região de Ribeirão Preto (SP), por exemplo, na cidade de Cássia dos Coqueiros, foi encontrada prevalência em torno de 6% dos adultos. Já no Rio Grande do Sul, os números são mais altos, chegando perto de 18% em Erechim.

Ele observa que não há dados claros sobre aumento ou redução de casos nos últimos anos. “O que sabemos é que a doença continua sendo uma causa importante de inflamação dentro do olho (uveíte), e que pode levar à cegueira. Não existe uma sazonalidade clara, mas surtos podem acontecer em locais onde a água foi contaminada.”
Sobre o perfil do paciente com a doença, o professor diz que o quadro clínico afeta principalmente pessoas previamente saudáveis, que procuram atendimento por diminuição da visão, às vezes associada à fotofobia, sensibilidade excessiva à luz. “Algumas já chegam com cicatrizes nos olhos, o que sugere quadros anteriores no passado. As formas mais graves costumam aparecer em idosos ou em pessoas com imunodeficiência”, explica Furtado.
Além do fator geográfico, condições sociais e alimentares influenciam o risco de infecção. “Pessoas em situação socioeconômica mais baixa têm maior risco de se infectar com o toxoplasma. O consumo de carne crua ou malcozida, além de água e hortaliças contaminadas, aumenta as chances de infecção”, ressalta o professor.
Descomplicada
