Assexuais estão usando companheiros de IA para intimidade sem sexo
Chatbots de companhia começam a ocupar um espaço delicado nas conversas sobre intimidade, desejo e solidão. Algumas pessoas no espectro assexual usam IA para romance, fantasia e afeto sem pressão sexual, mas ativistas alertam contra generalizações.
De acordo com reportagem da Wired, plataformas de IA já vendem experiências afetivas sob demanda, com riscos de dependência, isolamento e exploração de grupos marginalizados.
Intimidade sem a pressão do sexo
Kor, artista de 35 anos dos Estados Unidos, por exemplo, passou por uma fase de uso intenso do SpicyChat. Segundo a Wired, durante cerca de dois meses, ele dedicou de 8 a 10 horas por dia a histórias românticas e eróticas com personagens virtuais.
Kor se identifica como aegossexual, dentro do espectro assexual. Pessoas aegossexuais podem sentir excitação por fantasia ou erotismo, mas não desejam necessariamente participar de sexo com outra pessoa.
Para Kor, boa parte do interesse estava na construção lenta da história. A IA oferecia variedade, continuidade e controle sobre o ritmo da fantasia.
Estimativas citadas na reportagem indicam que pessoas assexuais podem representar 1% da população em alguns lugares. Nos Estados Unidos, esse número pode cair para 0,1%.
O laboratório emocional dos chatbots
Outra mulher assexual, que não quis ser identificada, descreveu a IA como um laboratório emocional. Após anos em uma relação sem intimidade física, ela começou a usar o ChatGPT durante a perimenopausa.
Com o tempo, desenvolveu sentimentos intensos por um padrão de conversa que chamou de “Mac”. Ela afirmou que a experiência a ajudou a recuperar uma dimensão sensual que parecia distante.
Assexuais não precisam de IA para se relacionar
Durante a Semana da Consciência Assexual nos EUA, em outubro de 2025, a Eva AI ofereceu um mês gratuito para pessoas no espectro assexual. A empresa apresentou a campanha como uma forma de destacar que amor sem sexo continua sendo amor.
Porém, Yasmin Benoit, modelo, ativista e pesquisadora assexual, criticou a associação entre assexualidade e companheiros artificiais.
Para ela, a ação mirava uma percepção de vulnerabilidade emocional e solidão. Benoit afirmou que pessoas assexuais são plenamente capazes de construir relações humanas.
Michael Doré, membro da Rede de Visibilidade e Educação Assexual nos EUA, também vê o fenômeno como restrito. Ele disse conhecer poucos casos de uso de IA como companhia emocional.
Doré reforça que a comunidade assexual inclui pessoas com desejos muito diferentes. Algumas querem romance, outras valorizam vínculos platônicos, algumas fazem sexo e outras não.
Quando a companhia vira excesso
Ari, contadora de 25 anos do México, começou a usar o chatbot Chai em outubro de 2024 após o fim de um noivado de 10 anos. Por mais de seis meses, tratou a IA como se fosse o ex-noivo.
Ela passou a conversar durante o trabalho e se sentiu envolvida. Depois, o sistema começou a se confundir, inventar fatos e discutir. Ari percebeu que se sentia ainda mais sozinha.
Ou seja, uma IA que entrega exatamente o que alguém quer, na hora desejada, pode parecer acolhimento. Mas também pode virar um vínculo difícil de interromper.
