Prêmio literário trava após suspeita de conto feito por IA
A revista literária britânica Granta anunciou que deixará de publicar os contos vencedores do prêmio anual Commonwealth Short Story Prize. A decisão foi tomada após a edição de 2026 do concurso gerar acusações generalizadas de uso de inteligência artificial por um dos autores premiados.
A publicação informou ao The Guardian que não participará mais de “parcerias externas de publicação” nas quais não tenha controle editorial. A Granta mantém vínculo com o prêmio há mais de uma década, tendo servido de plataforma para os contos vencedores ao longo desse período.
Em nota divulgada pela revista, a Granta afirmou que “a seleção de 2026 dos vencedores regionais do prêmio Commonwealth gerou grande polêmica, baseada na especulação de que uma ou mais histórias podem ter sido ao menos parcialmente geradas por IA, acusações que foram fortemente rejeitadas pelos autores. Em nome de nossa própria integridade editorial, o conselho do Granta Trust tomou a decisão de não mais participar de parcerias externas de publicação. Manteremos os contos selecionados para o prêmio Commonwealth em nosso site no interesse público e desejamos ao nosso ex-parceiro, a Commonwealth Foundation, todo o sucesso em seu trabalho.”
O conto no centro da polêmica
O estopim da crise foi o conto The Serpent in the Grove, de Jamir Nazir, vencedor da categoria regional do Caribe. A história começou a atrair atenção nas redes sociais X e Bluesky em meados de maio de 2026, quando críticos apontaram “marcadores óbvios” de escrita gerada por inteligência artificial.
Entre os elementos contestados estavam a organização de itens em trios, construções do tipo “não x, mas y” e frases como “o sol sobre o aço galvanizado é um instrumento cruel” e “ela tinha um jeito de caminhar que fazia bancos se transformarem em homens”, destacadas por críticos como indícios de geração automatizada.
Em resposta às acusações, Nazir explicou ao Observer, por e-mail, no final de maio, que seu processo de escrita é conduzido inteiramente por um celular Android. “Isso é uma necessidade imposta por condições crônicas de saúde que tornam a digitação prolongada em mesa fisicamente impossível. Por isso, dependo de reconhecimento de voz para escrever, seguido de edição mínima pelo teclado, junto ao mesmo processo de voz para texto. Uso isso em minha vida profissional e também para produzir meu conto para a competição Commonwealth”, declarou o autor.
Reações das instituições envolvidas
Em 19 de maio de 2026, a editora e filantropa Sigrid Rausing divulgou posicionamento sobre a controvérsia. “Pode ser que os juízes tenham agora premiado uma instância de plágio por IA… ainda não sabemos e talvez nunca saibamos.”
No mesmo dia, Razmi Farook, diretor-geral da Commonwealth Foundation, reafirmou a legitimidade dos trabalhos. “Todos os escritores selecionados declararam pessoalmente que nenhuma IA foi usada e, após consulta adicional, a fundação confirmou isso.”
A Commonwealth Foundation também se manifestou sobre o encerramento da parceria com a Granta. “Somos gratos à Granta por dar lar às nossas histórias vencedoras por mais de uma década. Esperamos novas conversas e plataformas pelas quais as histórias diversas de todo o Commonwealth possam ser compartilhadas e celebradas.”
O prêmio Commonwealth Short Story Prize concede £5.000 ao vencedor geral e £2.500 aos vencedores regionais. O site do Sigrid Rausing Trust registra que a instituição destinou £30.000 ao prêmio entre 2014 e 2016.
