Novo fóssil de 773 mil anos pode resolver mistério: “quem veio antes de nós?”
Pesquisadores descobriram restos humanos de 773 mil anos atrás em uma caverna na região de Casablanca, no Marrocos. A descoberta, publicada na revista científica Nature, inclui três mandíbulas (uma de criança), dentes, vértebras e um fêmur. Os achados preenchem uma importante lacuna no registro fóssil africano entre 1 milhão e 500 mil anos atrás.
Os fósseis foram localizados na caverna Grotte à Hominidés, situada na pedreira Thomas. De acordo com a CNN, este período é considerado crucial para compreender a evolução das três espécies humanas mais recentes: Homo sapiens, Neandertais e Denisovanos.
Datação precisa revela idade dos fósseis
A equipe de pesquisa utilizou a técnica de paleomagnetismo para determinar a idade exata dos espécimes. Isso porque este método identifica assinaturas geológicas de inversões do campo magnético terrestre em minerais específicos.
“Há muitos fósseis de hominídeos na África até cerca de um milhão de anos atrás. Mas depois disso há um salto para cerca de 500.000 anos atrás, e nesta lacuna não temos quase nada,” afirmou Jean-Jacques Hublin, coautor do estudo e paleontropólogo do Collège de France e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha.
Além disso, os cientistas confirmaram que a camada onde os fósseis estavam coincide com a transição Matuyama-Brunhes. Ele é um marcador cronológico que data de 773 mil anos atrás, quando ocorreu a mais recente inversão polar importante da Terra.
“É extremamente empolgante ter fósseis exatamente no meio desta lacuna,” de acordo com Hublin.
Características “mosaico” dos ancestrais
Os cientistas desenterraram a maioria dos fósseis em 2008 e 2009. Uma das mandíbulas foi descoberta em maio de 2008, quando os cientistas Jean-Jacques Hublin e Jean-Paul Raynal estavam presentes no local de escavação.
Análises por tomografia computadorizada revelaram que estes ancestrais apresentavam características “mosaico”, combinando assim traços primitivos e mais evoluídos. Além disso, eles não possuíam queixo definido como os Homo sapiens. Porém, seus dentes e outras características dentárias eram bastante similares aos de nossa espécie e dos Neandertais.
Serena Perini, geóloga e paleomagnetista da Universidade de Milão na Itália e coautora do estudo, declarou que a técnica permitiu à equipe “ancorar a presença destes hominídeos dentro de um quadro cronológico excepcionalmente preciso.”
Candidatos ao papel de ancestral comum
Evidências genéticas indicam que o ancestral comum dos humanos modernos, Neandertais e Denisovanos viveu entre 550 mil e 765 mil anos atrás. Isso antes de se dividir em três espécies distintas. O Marrocos também abriga o sítio de Jebel Irhoud, onde pesquisadores encontraram os restos mais antigos conhecidos de Homo sapiens, datados de 400 mil anos.
Entre os candidatos a este papel evolutivo estão o Homo antecessor. Ele é um grupo de fósseis que cientistas encontraram em Atapuerca, na Espanha, que data aproximadamente do mesmo período dos fósseis marroquinos, e o Homo heidelbergensis, cujos fósseis estavam tanto na África quanto na Eurásia.
Antonio Rosas, pesquisador do departamento de paleobiologia do Museu Nacional de Ciências Naturais em Madri, que não participou do estudo, descreveu o ancestral comum das três espécies humanas como uma “figura elusiva”. Ele afirmou: “O debate sobre quais fósseis podem representar este nó evolutivo crucial persiste, e identificar corretamente este ancestral é essencial para compreender as direções da subsequente mudança evolutiva.”
“A questão, então, torna-se se populações de Homo erectus deram origem diretamente a tudo, incluindo humanos, Neandertais e Denisovanos. Ou se existe uma linhagem rastreável com mudanças observáveis ao longo do caminho”, disse Ryan McRae, paleoantropólogo do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, que não participou da pesquisa.
“Qualquer fóssil de hominídeo deste período crítico representa uma nova e empolgante janela para a evolução humana”, declarou Carrie Mongle, professora assistente no departamento de antropologia da Universidade Stony Brook, nos EUA.
