Hábitos ao longo da vida podem reduzir risco de Alzheimer em 38%
Pesquisadores acompanharam 1.939 adultos com idade média de 80 anos sem demência no início da investigação. Os participantes com maior enriquecimento cognitivo durante a vida apresentaram risco 38% menor de desenvolver Alzheimer. A revista Neurology publicou o estudo.
A investigação examinou como atividades mentalmente estimulantes em diferentes fases da vida podem influenciar a saúde cerebral na velhice. Os cientistas avaliaram o enriquecimento cognitivo em três estágios: vida inicial (antes dos 18 anos), meia-idade e vida adulta tardia (a partir dos 80 anos). As atividades incluíram leitura, escrita e aprendizado de novos idiomas. De acordo com o ScienceDaily, a pesquisa representa um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre a relação entre estimulação cognitiva ao longo da vida e proteção contra demência.
“Nossa pesquisa analisou o enriquecimento cognitivo desde a infância até a vida adulta tardia, focando em atividades e recursos que estimulam a mente”, disse a autora do estudo Andrea Zammit, PhD, do Rush University Medical Center em Chicago, nos EUA. “Nossos achados sugerem que a saúde cognitiva na vida adulta tardia é fortemente influenciada pela exposição ao longo da vida a ambientes intelectualmente estimulantes.”
Metodologia e fatores avaliados
Os cientistas avaliaram na vida inicial, antes dos 18 anos, fatores como frequência com que os participantes eram lidos, frequência de leitura de livros, disponibilidade de jornais e atlas em casa e se estudaram idioma estrangeiro por mais de cinco anos.
Na meia-idade, foram considerados nível de renda aos 40 anos, acesso a recursos como assinaturas de revistas, dicionários e cartões de biblioteca. A frequência de visitas a museus ou bibliotecas também foi analisada.
Na vida adulta tardia, a partir dos 80 anos, eles analisaram atividades como leitura, escrita e jogos, por exemplo. Além disso, os pesquisadores também consideraram a renda da Previdência Social, aposentadoria e outras fontes.
Resultados e diferenças observadas
Os pesquisadores calcularam pontuações de enriquecimento para cada participante. A comparação entre os 10% com pontuações mais altas e os 10% com pontuações mais baixas mostrou diferenças claras.
Entre aqueles com maior enriquecimento, 21% desenvolveram Alzheimer. Por outro lado, entre aqueles com menor enriquecimento, 34% desenvolveram a doença.
Após considerar fatores como idade, sexo e educação, o enriquecimento ao longo da vida mais elevado foi associado a risco 38% menor de doença de Alzheimer. O risco de comprometimento cognitivo leve foi 36% menor.
Aliás, indivíduos que mantiveram maior engajamento intelectual durante suas vidas desenvolveram doença de Alzheimer aproximadamente cinco anos mais tarde do que aqueles com níveis mais baixos de estímulo mental. Participantes com maior enriquecimento desenvolveram Alzheimer em idade média de 94 anos. Além disso, aqueles com menor enriquecimento desenvolveram a doença aos 88 anos.
O desenvolvimento de comprometimento cognitivo leve ocorreu sete anos mais tarde, em média, entre os participantes com maior enriquecimento cognitivo. Participantes com maior enriquecimento desenvolveram sintomas em idade média de 85 anos. Por outro lado, aqueles com menor enriquecimento desenvolveram sintomas aos 78 anos.
Análises cerebrais pós-morte
No grupo menor que passou por autópsias após a morte, aqueles com maior enriquecimento mostraram habilidades de memória e pensamento mais fortes. Ou seja, o declínio cognitivo foi mais lento antes do falecimento.
Assim, esses benefícios permaneceram mesmo após considerar mudanças cerebrais precoces associadas ao Alzheimer. As mudanças incluem acúmulo de proteínas chamadas amiloide e tau.
Limitações da pesquisa
Os participantes relataram detalhes sobre suas experiências na infância e meia-idade posteriormente na vida. Isso pode ter afetado a precisão de suas memórias.
Os pesquisadores ressaltam que os achados mostram uma associação. A pesquisa não prova que o aprendizado ao longo da vida previne diretamente o Alzheimer. Porém, o estudo mostra uma conexão entre estímulo mental e menor risco da doença.
Implicações para políticas públicas
“Nossas descobertas são encorajadoras, sugerindo que o engajamento consistente em uma variedade de atividades mentalmente estimulantes ao longo da vida pode fazer diferença na cognição”, afirmou Zammit. “Investimentos públicos que expandam o acesso a ambientes enriquecedores, como bibliotecas e programas de educação infantil projetados a fim de despertar um amor pelo aprendizado ao longo da vida, podem ajudar a reduzir a incidência de demência.”
Os pesquisadores acompanharam os participantes por cerca de oito anos. Durante o período de observação, 551 participantes desenvolveram doença de Alzheimer. Além disso, outros 719 desenvolveram comprometimento cognitivo leve.
