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Creatina pode ajudar sistema imune contra câncer

Pesquisa em camundongos e células humanas indica que suplemento fortalece células dendríticas, essenciais para ativar a resposta imune contra tumores. Imunoterapias atuais beneficiam apenas parcela dos pacientes e a creatina pode ampliar esse sucesso.
Imagem: Unsplash

Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos EUA, indica que a creatina, suplemento amplamente utilizado por atletas para ganho de força e desempenho, pode ter um papel relevante no combate ao câncer. O estudo identificou que a substância fortalece a atividade das células dendríticas, componentes do sistema imunológico responsáveis por detectar tumores e ativar as células T assassinas que destroem células cancerígenas.

Os resultados, publicados na revista científica iScience, são baseados em experimentos com camundongos e células humanas cultivadas em laboratório. Os pesquisadores ressaltam que os achados ainda não foram testados em pacientes com câncer e não devem ser interpretados como evidência de que a suplementação de creatina melhora tratamentos oncológicos em humanos.

Eficácia limitada da imunoterapia atual

As imunoterapias contra o câncer disponíveis hoje são projetadas para ativar células T assassinas, mas apenas entre 20% e 40% dos pacientes obtêm benefícios expressivos com esses tratamentos. A equipe da UCLA acredita que melhorar a função das células dendríticas, que coordenam e direcionam essas células T, pode ampliar a eficácia da imunoterapia para um número maior de pessoas.

“A imunoterapia tem demonstrado promessas notáveis, mas funciona apenas para um subconjunto de pacientes”, declarou Lili Yang, autora sênior do estudo, professora de microbiologia, imunologia e genética molecular e membro do Eli and Edythe Broad Center of Regenerative Medicine and Stem Cell Research da UCLA. “O que este estudo mostra é que a creatina não ajuda apenas as células T que combatem o câncer… ela também energiza toda a infraestrutura que as apoia e as guia. Isso torna a creatina um suplemento promissor para apoiar de forma holística a resposta imune da qual as imunoterapias modernas dependem.”

Como a creatina age nas células imunológicas

Para compreender o mecanismo de ação, os pesquisadores analisaram a atividade de genes metabólicos em células dendríticas que haviam infiltrado tumores em camundongos. O gene responsável pela produção do transportador de creatina, proteína que carrega a substância para o interior das células, mostrou atividade muito maior nas células dendríticas presentes nos tumores do que nas encontradas em tecidos saudáveis.

A equipe então produziu células dendríticas sem o transportador de creatina. Sem a capacidade de absorver a substância, essas células sobreviveram com menos eficiência, tornaram-se menos ativas e perderam grande parte da capacidade de preparar as células T para reconhecer e atacar tumores. Em experimentos laboratoriais, as células T cultivadas junto a essas células dendríticas deficientes em creatina se multiplicaram menos e produziram menor quantidade de moléculas de sinalização necessárias para uma resposta anticâncer eficaz.

Os pesquisadores também testaram o efeito oposto. Injeções diárias de creatina em modelos de melanoma em camundongos reduziram significativamente o crescimento dos tumores e aumentaram tanto o número quanto a atividade das células dendríticas infiltradas. Por meio de análises de metabolômica, os cientistas verificaram que a suplementação elevou os níveis intracelulares de ATP, a principal fonte de energia que movimenta praticamente todos os processos celulares. Com reservas de energia maiores, as células dendríticas mantiveram as vias de sinalização inflamatória necessárias para sua ativação.

Os pesquisadores compararam o papel da creatina ao de uma bateria recarregável, capaz de armazenar e liberar energia conforme necessário, mesmo competindo com células tumorais em crescimento acelerado por nutrientes limitados.

Potencial para vacinas e imunoterapias

Em experimentos com células humanas, a creatina melhorou a ativação de células dendríticas derivadas de monócitos, utilizadas no desenvolvimento de vacinas oncológicas baseadas em células dendríticas. A substância também aprimorou a capacidade dessas células de estimular células T humanas contra um alvo associado ao câncer.

“O potencial que vemos aqui é que a creatina poderia ser usada de duas formas complementares, como suplemento para melhorar a resposta imune de pacientes que já recebem imunoterapia e como ferramenta para melhorar a qualidade das vacinas baseadas em células dendríticas antes de serem administradas”, disse James Elsten-Brown, co-primeiro autor do estudo e estudante de pós-graduação no laboratório de Yang, ao ScienceDaily.

Elliot Kang, também co-primeiro autor e ex-pesquisador de graduação no mesmo laboratório, afirmou que o alcance do mecanismo identificado é considerável. “Entender como apoiar metabolicamente as células dendríticas significa apoiar toda a resposta antitumoral, não apenas as células T assassinas no final dela”, declarou.

Próximos passos

Apesar dos resultados encorajadores, os pesquisadores reforçam que o trabalho permanece em estágio inicial. O monohidrato de creatina é amplamente utilizado há décadas e é considerado seguro nas doses recomendadas, mas a equipe orienta que qualquer pessoa em tratamento oncológico consulte seu médico antes de adicionar qualquer suplemento à rotina. As abordagens experimentais descritas no estudo não foram testadas em humanos nem aprovadas pela FDA (Food and Drug Administration) como seguras e eficazes para uso em pessoas.

O próximo passo será a realização de ensaios clínicos prospectivos para determinar se a suplementação de creatina melhora os resultados de pacientes submetidos à imunoterapia contra o câncer. A estratégia terapêutica identificada no estudo também é objeto de um pedido de patente registrado pelo UCLA Technology Development Group em nome dos Regentes da Universidade da Califórnia.

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