Havaí testa estradas feitas com plástico do oceano
Pesquisadores do Havaí estão misturando redes de pesca descartadas e plástico reciclado ao asfalto para construir estradas. Testes iniciais indicaram que o pavimento com material reciclado não libera mais partículas plásticas do que o asfalto convencional.
A pesquisa, divulgada pelo ScienceDaily, foi conduzida pelo Centro de Pesquisa de Detritos Marinhos (CMDR) da Universidade do Pacífico do Havaí. Os resultados foram apresentados na reunião de primavera da Sociedade Americana de Química (ACS). A iniciativa busca dar uma destinação prática a plásticos que, de outra forma, acabariam em aterros ou no oceano.
Jeremy Axworthy, pesquisador do CMDR, afirmou que o estudo avalia a viabilidade ambiental da proposta. “Este trabalho investiga se é responsável utilizar plásticos reciclados nas estradas do Havaí”, declarou Axworthy. “Ao reaproveitar resíduos plásticos que já se encontram no Havaí, podemos reduzir os impactos ambientais e econômicos do transporte desses resíduos para fora das ilhas, bem como de sua incineração ou descarte em aterros sanitários já superlotados no arquipélago”.
Por que o Havaí testa esse asfalto
Desde 2020, a maioria das estradas do Havaí é construída com asfalto modificado por polímeros (PMA), formulação mais resistente a rachaduras, deformações e danos causados pela água. O PMA utiliza pellets de estireno-butadieno-estireno (SBS), um tipo de copolímero, como componente principal. Os pesquisadores passaram a investigar se parte desse polímero virgem poderia ser substituída por plástico descartado.
O Departamento de Transportes do Havaí (HDOT) firmou parceria com a química ambiental Jennifer Lynch, diretora do CMDR e líder da equipe de pesquisa. A ela foram atribuídas duas tarefas: fornecer redes de pesca abandonadas coletadas nas águas do Havaí e verificar se o pavimento com plástico reciclado libera mais microplásticos do que o asfalto convencional com SBS.
Lynch afirmou que o projeto tenta resolver um problema de grande escala. “Petrechos de pesca de plástico descartados e de origem estrangeira são a principal fonte do problema de detritos marinhos no Havaí”, declarou. “Até o momento, o projeto “Bounty” da CMDR — que paga uma recompensa financeira a pescadores comerciais licenciados pela remoção de detritos marinhos — retirou 84 toneladas de grandes equipamentos de pesca abandonados do Oceano Pacífico.”
Testes em campo e análise de microplásticos
Após uma empresa norte-americana processar os plásticos recuperados em materiais adequados para a produção de asfalto, o HDOT levou o projeto para o mundo real. Uma empresa local de pavimentação recobriu trechos de uma rua residencial em Oahu com três misturas diferentes: uma com SBS convencional, uma com polietileno reciclado do programa de reciclagem residencial de Honolulu e uma feita com polietileno recuperado de redes de pesca descartadas.
Cerca de 11 meses depois, a equipe de Lynch retornou ao local para coletar poeira das três seções e medir a liberação de microplásticos no ambiente. Os cientistas utilizaram a técnica de pirólise acoplada à cromatografia gasosa e espectrometria de massas (Py-GC-MS) para identificar a origem dos materiais encontrados.
Os resultados iniciais mostraram que o pavimento com polietileno reciclado não liberou mais polímeros do que o asfalto convencional com SBS. Os pesquisadores acreditam que isso ocorre porque o plástico se mistura ao ligante asfáltico. Ao desgastar, o pavimento solta partículas compostas de rocha, ligante e polímero juntos, não plástico isolado.
Lynch descreveu o achado sobre o sinal do pneu nas análises. “Nos nossos dados iniciais de Py-GC-MS, observamos que o sinal do desgaste de pneus encobria o do polietileno em várias ordens de magnitude — como picos gigantescos! Tivemos que vasculhar a “mata” do cromatograma para encontrar vestígios de polietileno.”, afirmou a pesquisadora.
Próximos passos
Mais testes ainda são necessários para avaliar a durabilidade dessas estradas ao longo do tempo. Se estudos futuros confirmarem o desempenho do material, a tecnologia poderá contribuir para reduzir tanto os resíduos em aterros quanto os detritos marinhos no Havaí.
Lynch rebateu o ceticismo em torno da reciclagem de plástico. “Algumas pessoas acham que a reciclagem de plástico é uma farsa — que não funciona; que é um desafio grande demais”, afirmou. “Mas este trabalho demonstra que a reciclagem pode funcionar quando a sociedade prioriza a sustentabilidade”.
