2023 © Copyright 404 - Todos os direitos reservados

Tratamento contra depressão pode ganhar versão sem “viagem” psicodélica

Variante química mantém ação terapêutica em receptores cerebrais de serotonina e reduz efeitos psicodélicos em testes com camundongos.
Imagem: Pexels/Reprodução

Uma equipe de pesquisadores criou cinco variantes químicas da psilocina, substância ativa da psilocibina encontrada em cogumelos alucinógenos. O composto mais promissor, chamado 4e, mantém a capacidade de atuar em vias cerebrais ligadas à depressão, mas provoca menos efeitos psicodélicos. O Journal of Medicinal Chemistry, da American Chemical Society publicou o estudo.

Sara De Martin, Andrea Mattarei e Paolo Manfredi lideraram a equipe que desenvolveu as variantes químicas. Os compostos foram projetados para liberar a molécula ativa no cérebro de forma mais lenta e constante. De acordo com o ScienceDaily, a pesquisa representa um avanço significativo na busca por tratamentos psiquiátricos que aproveitem os benefícios terapêuticos dos psicodélicos sem os intensos efeitos alucinógenos que podem limitar sua aplicação clínica.

Os cientistas testaram as substâncias em experimentos laboratoriais com amostras de plasma humano. Também realizaram testes em condições que simulam a absorção gastrointestinal. O candidato 4e apresentou forte estabilidade durante a absorção. A substância produziu uma liberação gradual de psilocina.

A psilocibina tem despertado interesse crescente de cientistas que estudam tratamentos para depressão, ansiedade, transtornos por uso de substâncias e algumas doenças neurodegenerativas. Os intensos efeitos alucinógenos do composto podem limitar sua aplicação na medicina.

Muitos transtornos de humor e condições neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer, estão ligados a interrupções na serotonina. Esse neurotransmissor desempenha papel fundamental na regulação do humor e outras funções cerebrais.

As alucinações frequentemente associadas a esses compostos podem fazer com que alguns pacientes hesitem em considerá-los como tratamentos, mesmo quando há benefícios médicos claros. Os pesquisadores projetaram as variantes químicas com o objetivo de reduzir os efeitos alucinógenos. A intenção era preservar a atividade terapêutica.

Testes em animais

A equipe administrou oralmente doses equivalentes de 4e e psilocibina farmacêutica em camundongos. Os cientistas monitoraram quanto de psilocina atingiu a corrente sanguínea e o cérebro dos animais. O acompanhamento durou 48 horas.

Nos animais tratados com 4e, o composto atravessou a barreira hematoencefálica de forma eficiente. A substância produziu um nível mais baixo, porém mais duradouro, de psilocina no cérebro em comparação com a psilocibina.

As observações comportamentais revelaram diferenças significativas entre os grupos. Camundongos que receberam 4e apresentaram menos contrações de cabeça do que camundongos tratados com psilocibina. Cientistas usam as contrações de cabeça como um indicador confiável de atividade semelhante à psicodélica em roedores.

O resultado ocorreu mesmo com o 4e interagindo fortemente com receptores de serotonina. O composto 4e ativou receptores de serotonina em níveis similares à psilocina.

Necessidade de mais estudos

Ainda são necessárias mais pesquisas para compreender exatamente como essas moléculas funcionam. O impacto biológico completo do composto 4e precisa ser examinado antes que cientistas possam avaliar sua segurança e potencial terapêutico em pessoas.

Os pesquisadores acreditam que a diferença nos efeitos está principalmente relacionada à quantidade de psilocina liberada no cérebro e à velocidade dessa liberação. Novos estudos serão necessários para entender os mecanismos de ação dessas moléculas. Somente após essas investigações adicionais os cientistas poderão avaliar a segurança e o potencial terapêutico desses compostos em seres humanos.

“Nossas descobertas são consistentes com uma perspectiva científica crescente sugerindo que efeitos psicodélicos e atividade serotoninérgica podem ser dissociados”, afirma Andrea Mattarei, um dos autores correspondentes do estudo. “Isso abre a possibilidade de projetar novos terapêuticos que mantêm a atividade biológica benéfica enquanto reduzem as respostas alucinógenas, potencialmente permitindo estratégias de tratamento mais seguras e práticas.”

Além disso, as descobertas indicam que pode ser possível desenvolver compostos estáveis baseados em psilocina que alcancem o cérebro e ativem receptores de serotonina. Assim, esses compostos poderiam reduzir os efeitos intensos de alteração mental comumente associados aos psicodélicos.

Assine a newsletter do Giz Brasil