Abelhas podem contar, diz novo estudo
As abelhas podem ter uma habilidade mais sofisticada do que parecia: reconhecer quantidades. Um novo estudo sugere que esses insetos não estavam apenas reagindo a padrões visuais em experimentos anteriores, mas demonstrando sensibilidade real a números.
A pesquisa, publicada na Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, reacende um debate importante sobre cognição animal. Para entender se uma espécie “conta”, os cientistas precisam olhar o teste pelos olhos do próprio animal, não pela forma como humanos enxergam figuras em um cartão.
O debate sobre números e padrões
Nos últimos anos, estudos sobre cognição de abelhas chamaram atenção. Um experimento de 2019 treinou abelhas da espécie Apis mellifera a associar símbolos inventados a valores numéricos.
Depois, elas viam cartões com diferentes quantidades de formas e precisavam escolher o símbolo correspondente. Na fase de treinamento, as abelhas alcançaram precisão entre 75% e 80%.
Nos testes reais, o desempenho caiu para algo entre 60% e 65%. Ainda assim, o resultado ficou acima do esperado pelo acaso. Isso levou os pesquisadores a defender que as abelhas reconheciam quantidades.
A crítica: elas poderiam estar “enganando” o teste
Porém, nem todos aceitaram a conclusão. De acordo com o ScienceAlert, uma crítica publicada em 2020 apontou que as abelhas talvez não estivessem contando. Elas poderiam apenas diferenciar imagens mais ou menos complexas.
Ou seja, em vez de perceber “três” ou “quatro” objetos, o inseto poderia escolher o cartão mais “carregado”, com mais bordas, detalhes e variações visuais.
O problema é que humanos enxergam os cartões com muito mais definição. As abelhas têm uma visão diferente, com menor capacidade de resolver detalhes finos.
O mundo visto pelos olhos de uma abelha
Para testar essa crítica, pesquisadores reanalisaram os estímulos visuais usados nos experimentos. Eles aplicaram um modelo matemático baseado na acuidade espacial das abelhas, ou seja, na capacidade desses insetos de distinguir detalhes no espaço.
Assim, quando as imagens foram avaliadas do ponto de vista das abelhas, a relação entre quantidade de objetos e complexidade visual ficou muito menos consistente.
Isso enfraquece a hipótese de que elas apenas escolhiam a imagem mais “cheia”. Se esse atalho visual não aparece claramente para as abelhas, a explicação numérica ganha força.
O número parece continuar ali
Mirko Zanon, neurocientista da Universidade de Trento, na Itália, afirmou que havia um debate sobre se as abelhas estavam contando ou apenas reagindo a padrões. Segundo ele, os novos resultados mostram que essa crítica não se sustenta quando a biologia do animal entra na análise.
Scarlett Howard, zoóloga da Monash University, na Austrália, reforçou que estudar inteligência animal exige abandonar a perspectiva humana como padrão. Para ela, é essencial tentar entender como a própria espécie percebe o mundo.
Por que isso importa
A descoberta não significa que abelhas façam contas como humanos. O ponto é que elas parecem distinguir quantidades mesmo com cérebros minúsculos e sentidos muito diferentes dos nossos.
Isso ajuda a ampliar a compreensão sobre inteligência animal. Também mostra que cognição não depende apenas de cérebros grandes, mas de sistemas nervosos capazes de resolver problemas concretos no ambiente.
No fim, as abelhas continuam fazendo o que a ciência adora: parecem pequenas, mas bagunçam grandes certezas.
