Técnica de rejuvenescimento vai começar a ser testada em humanos
Uma técnica que busca reverter parte do envelhecimento celular deve começar a ser testada em humanos ainda este ano. A proposta tenta fazer células velhas recuperarem características mais jovens sem perder sua função original. Se der certo, a estratégia de rejuvenescimento pode abrir caminho para tratar danos no nervo óptico causados por glaucoma e, no futuro, alcançar outros órgãos.
O teste clínico nasce de uma linha de pesquisa que ganhou força nos últimos anos e atraiu bilhões de dólares em investimento privado. O interesse não vem só da academia. Empresas apoiadas por nomes do Vale do Silício, nos EUA, também entraram na corrida para transformar a chamada reprogramação parcial em terapia.
O que os cientistas querem fazer
A ideia tem origem numa descoberta de 2006. Naquele ano, Shinya Yamanaka e um colega mostraram que quatro proteínas, depois chamadas de fatores de Yamanaka, podiam transformar uma célula adulta em uma célula-tronco pluripotente induzida.
Essas células conseguem assumir novas identidades. O problema é que esse reset completo apaga a função anterior da célula. Para uso terapêutico direto no corpo, isso traz risco alto.
Depois surgiu outra hipótese. Em vez de levar a célula até esse estado extremo, pesquisadores propuseram ativar os fatores só por um período curto. Assim, a célula poderia rejuvenescer sem perder a própria identidade.
O teste que vai colocar a ideia à prova
De acordo com a Scientific American, a empresa Life Biosciences, nos EUA, deve ser a primeira a testar essa abordagem em pessoas. O plano é usar um vírus para levar três fatores de Yamanaka, sem o c-Myc, para um dos olhos de pacientes com dano no nervo óptico por glaucoma.
A equipe também pretende tratar pessoas com NAION, uma condição que provoca lesão aguda no nervo óptico. Os genes ficarão sob controle de um interruptor genético. Eles só serão ativados quando os participantes tomarem um antibiótico específico.
Segundo Sharon Rosenzweig-Lipson, diretora científica da empresa, estudos em macacos não encontraram sinais de câncer nem outros efeitos nocivos. Os participantes serão acompanhados por pelo menos cinco anos.
A promessa e o risco andam juntos
O entusiasmo é grande, mas os riscos também. Se a célula avançar demais nesse processo, ela pode perder a função normal e até se tornar cancerosa.
“Quando as células perdem sua identidade, sabemos que isso traz algumas formas de perigo”, afirmou Tamir Chandra, da Mayo Clinic.
Por isso, muitos grupos retiraram o fator c-Myc da equação, já que altos níveis dessa proteína podem causar câncer. Em camundongos, estudos com apenas três fatores mostraram sinais de segurança e melhora em medidas de saúde.
Mesmo assim, dúvidas seguem abertas. Alguns cientistas lembram que o c-Myc também ajuda na divisão celular e pode ter funções úteis em certos contextos.
O que está em jogo além do olho
O primeiro ensaio clínico vai medir segurança, não eficácia. Por isso, talvez ainda seja cedo para saber se a técnica realmente funciona como tratamento. Também há debate sobre o que conta, de fato, como reversão do envelhecimento.
Ainda assim, a área avança porque se conecta a uma ideia central da biologia do envelhecimento: a de que o tempo altera o epigenoma, o conjunto de marcas químicas que influencia a atividade dos genes. A reprogramação parcial parece rebobinar parte dessas marcas.
Por fim, para alguns cientistas, isso pode ajudar a restaurar funções perdidas com a idade. Para outros, a evidência ainda não basta. O consenso hoje é mais sóbrio que triunfal. A promessa é enorme, mas a prova real começa agora.
