2023 © Copyright 404 - Todos os direitos reservados

Cientistas revelam 42 páginas fantasma de manuscrito bíblico

Equipe utilizou técnicas de imageamento para recuperar textos do Codex H, que contém Cartas de São Paulo.
Imagem: Damianos Kasotakis

O professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, na Escócia, liderou uma equipe que recuperou 42 páginas ausentes do Codex H. O manuscrito do século VI contém as Cartas de São Paulo e um dos documentos mais importantes do Novo Testamento

Os pesquisadores conseguiram recuperar textos ocultos de páginas que não existem mais fisicamente. O manuscrito original foi desmontado no século XIII no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, na Grécia. Suas páginas foram recobertas com nova tinta. Posteriormente foram reutilizadas como material de encadernação e folhas de guarda em diversos outros manuscritos.

De acordo com o SciTechDaily, a descoberta representa um avanço significativo na compreensão dos textos bíblicos antigos e das práticas de preservação de manuscritos ao longo dos séculos.

Os fragmentos sobreviventes estão distribuídos em coleções na Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França.

Processo químico permitiu a descoberta

A recuperação foi possível devido a um processo químico específico. O manuscrito recebeu nova aplicação de tinta em determinado momento de sua história. Os compostos químicos presentes nessa tinta causaram danos de “transferência” nas páginas opostas. O processo criou uma imagem espelhada do texto na folha oposta.

“A descoberta veio de um ponto de partida importante: sabíamos que, em algum momento, o manuscrito recebeu nova tinta. Os produtos químicos na tinta nova causaram danos de ‘transferência’ nas páginas opostas, criando essencialmente uma imagem espelhada do texto na folha oposta. Isso às vezes deixando rastros em várias páginas de profundidade, praticamente invisíveis a olho nu, mas muito claros com as mais recentes técnicas de imageamento”, explica o professor Garrick Allen.

Essas marcas deixaram rastros que se estenderam por várias páginas de profundidade. Assim, os rastros são praticamente invisíveis a olho nu. Porém, as mais recentes técnicas de imageamento permitiram detectá-los claramente.

Os pesquisadores utilizaram imageamento multiespectral a fim de processar imagens das páginas existentes. A técnica permitiu recuperar texto “fantasma” que não existe mais fisicamente. Dessa forma, a equipe conseguiu recuperar múltiplas páginas de informação de cada página física individual.

Datação confirma origem no século VI

A equipe colaborou com especialistas em Paris para realizar datação por radiocarbono. O exame confirmou a origem do pergaminho no século VI. 

Allen acrescenta: “Dado que o Codex H é uma testemunha tão importante para nossa compreensão das escrituras cristãs, ter descoberto qualquer nova evidência (muito menos essa quantidade) do que ele originalmente parecia é nada menos que monumental.”

Páginas revelam práticas de escribas antigos

O material recém-recuperado inclui seções já conhecidas das Cartas de Paulo. A descoberta oferece uma perspectiva incomum sobre a longa história do Novo Testamento. Isso porque ele revela as formas como foi lido, copiado, preservado e compreendido ao longo do tempo.

As páginas incluem as listas de capítulos mais antigas conhecidas para as Cartas de Paulo. Elas mostram divisões muito diferentes do sistema utilizado atualmente. Os fragmentos revelam como os escribas do século VI corrigiam, anotavam e se envolviam diretamente com os escritos sagrados.

Além disso, a condição física do manuscrito mostra como livros sagrados eram reutilizados, recebiam novos propósitos depois de se tornarem danificados. Além disso, a descoberta também revela mais sobre as pessoas que produziram e utilizaram o Codex H. 

Edição digital disponível gratuitamente

Uma edição digital já está disponível gratuitamente neste endereço. As páginas recuperadas ficam acessíveis ao público e aos estudiosos pela primeira vez em séculos. Aliás, uma nova edição impressa do Codex H está prevista para publicação.

Assine a newsletter do Giz Brasil