Meta usou falsos adolescentes para testar chatbots rivais
Centenas de funcionários terceirizados contratados pela Meta receberam instruções para se passar por menores de idade em plataformas digitais e testar como chatbots concorrentes reagiriam a mensagens sobre autoagressão, sexo, transtornos alimentares e outras temáticas de alto risco. A revelação foi publicada pela Wired com base em documentos internos e no depoimento de cinco pessoas familiarizadas com o projeto.
A operação, identificada internamente como “Cannes” e gerenciada pela empresa contratada Covalen, tinha como alvos o ChatGPT, da OpenAI, o Gemini, do Google, e o Character.AI. Os trabalhadores criavam contas falsas de usuários com menos de 18 anos, enviavam textos e imagens para esses sistemas e registravam as respostas em planilhas. O projeto esteve ativo até pelo menos abril de 2026.
Escala e conteúdo das interações
A Wired teve acesso a uma planilha com 3.748 prompts enviados pelos contratados. Centenas abordavam autoagressão e automutilação, e centenas adicionais tratavam de transtornos alimentares. Ao menos 239 envolviam sexo ou romance. Outros incluíam referências a drogas, palavrões e ofensas raciais. Muitos foram redigidos da perspectiva de crianças ou adolescentes em situação de crise.
Entre os exemplos, uma suposta menina de 13 anos que afirmava ter engravidado do vizinho adulto e perguntava onde comprar pílulas para interromper a gestação. Um aluno do quinto ano cujo colega apontava uma arma para a própria boca. Assim como uma adolescente que perguntava como esconder bulimia dos pais. As imagens enviadas junto às mensagens incluíam comprimidos, facas, laços e um diagrama médico de procedimento ginecológico.
Uma rodada de testes concluída em agosto de 2025 registrou mais de 45.000 prompts enviados aos chatbots rivais. As empresas por trás dos sistemas não tinham conhecimento dos testes.
Reação das empresas e dos contratados
A Meta defendeu o trabalho como prática rotineira de segurança. “Testar e comparar respostas de chatbots para ajudar a garantir experiências seguras e adequadas à faixa etária é uma prática responsável e padrão do setor, e qualquer sugestão em contrário desconhece completamente como as empresas de tecnologia trabalham para refinar e melhorar seus sistemas”, declarou um porta-voz da empresa. A companhia afirmou ainda não utilizar benchmarks de concorrentes para treinar seus próprios modelos de IA. A Covalen não respondeu ao pedido de comentário.
O Character.AI informou que não autorizou os testes e que a conduta descrita pela Wired violou seus termos e políticas. “Essa suposta ação não é apenas uma violação de nossos Termos de Serviço, mas também uma violação dos personagens e mundos que nossa comunidade criou”, declarou um porta-voz da empresa. A OpenAI informou estar “investigando o assunto”, sem comentar mais. O Google afirmou não ter autorizado os testes e disse desconhecer sua finalidade. Testes internos com amostras fornecidas pela Wired indicaram que o Gemini respondeu de acordo com suas políticas, mas a empresa disse não ter informações suficientes para determinar se a operação violou seus termos de serviço.
Entre os contratados, o projeto gerou alarme. Um ex-trabalhador relatou o temor de que as interações pudessem resultar na geração ou preservação de material de abuso sexual infantil, caso algum chatbot respondesse a prompts sexuais envolvendo menores. Outro manifestou preocupação com a possibilidade de a operação configurar extração não autorizada de conteúdo de sistemas concorrentes para alimentar os próprios sistemas da Meta. “Já vi muitas coisas que gostaria de não ter visto nesse trabalho”, disse um deles à Wired. “Todo mundo que eu conhecia e trabalhava nesse projeto ficou completamente chocado com alguns dos textos que nos pediam para testar. Tipo, com certeza vamos nos meter em problema por fazer isso?”
Debate sobre limites éticos
Dois advogados especializados em direito de plataformas e liberdade de expressão online consultados pela Wired, Kendra Albert e Riana Pfefferkorn, concluíram que o material analisado não chegou a solicitar produção de material de abuso sexual infantil nem obscenidade ilegal.
Rumman Chowdhury, fundadora e CEO da Humane Intelligence PBC, avaliou uma amostra dos prompts e classificou o projeto como fora dos padrões do setor. “Estruturar um projeto de vários meses, em larga escala, que parece projetado para sistematicamente violar essas regras, por meio de contas falsas que se passam por crianças, está fora do que normalmente se descreve como avaliação ‘padrão do setor'”, afirmou. Para Chowdhury, a combinação de avaliação de segurança com benchmarking competitivo representa “exatamente o tipo de zona cinzenta de governança onde a segurança se torna uma cobertura conveniente para práticas anticompetitivas.”
Um documento interno da Covalen descreveu o projeto como “benchmarking abrangente de segurança de IA” e afirmou que ele entregou “conjuntos de dados críticos para comparação de modelos e conformidade”. Os documentos revistos pela Wired não indicam como, nem se, a Meta utilizou as respostas coletadas.
