Cocaína na água pode fazer peixes nadarem mais
Salmões jovens expostos a um resíduo da cocaína nadaram distâncias bem maiores que peixes não expostos em um lago da Suécia. O estudo, publicado na revista Current Biology, mostra como substâncias liberadas no esgoto podem alterar a vida selvagem de formas ainda pouco compreendidas.
A pesquisa acompanhou salmões-do-atlântico em Vättern, um grande lago a cerca de 240 quilômetros a sudoeste de Estocolmo. O resultado chama atenção porque o efeito mais forte não veio da cocaína em si, mas da benzoilecgonina, o principal composto formado quando o corpo humano metaboliza a droga.
O resíduo que escapa pelo esgoto
Quando uma pessoa consome cocaína, o organismo quebra a substância em compostos menores, chamados metabólitos. A benzoilecgonina é o principal deles.
Depois, esse subproduto sai pela urina e chega aos sistemas de esgoto. O problema é que muitas estações de tratamento não removem completamente esse tipo de composto. Assim, resíduos de drogas e medicamentos podem chegar a rios, lagos e águas costeiras.
Ou seja, a água pode carregar uma espécie de “coquetel diluído” de substâncias biologicamente ativas. Elas aparecem em baixas concentrações, mas ainda podem interagir com organismos aquáticos.
Como o teste foi feito
Os pesquisadores foram a um criadouro de salmões-do-atlântico no sul da Suécia e marcaram 105 peixes de dois anos com dispositivos de rastreamento.
Os animais também receberam cápsulas de liberação lenta. Um terço recebeu cocaína. Outro terço recebeu benzoilecgonina. O grupo de controle não recebeu nenhuma substância ligada à droga.
Depois, os salmões foram soltos no lago Vättern e monitorados durante oito semanas. A ideia era observar o comportamento dos peixes em um ambiente natural, não apenas em laboratório.
Peixes foram mais longe
Os salmões expostos à benzoilecgonina nadaram quase o dobro por semana em comparação com os peixes do grupo de controle.
Perto do fim do estudo, os animais expostos ao metabólito chegaram a cerca de 32 quilômetros do ponto de soltura. Já os peixes sem exposição química percorreram até cerca de 19 quilômetros.
Os salmões que receberam cocaína também mostraram tendência de nadar mais, mas o efeito apareceu de forma mais fraca e menos consistente.
Esse resultado surpreendeu os pesquisadores. A expectativa mais óbvia seria que a cocaína causasse o maior impacto. No entanto, o subproduto teve efeito mais robusto.
Por que isso preocupa
A pesquisa analisou comportamento, não sobrevivência ou reprodução. Por isso, os cientistas ainda não sabem quais seriam as consequências de longo prazo.
Mesmo assim, se um peixe nada mais do que o normal, ele pode gastar energia que usaria para procurar alimento, crescer ou escapar de ameaças.
Também pode entrar em áreas desconhecidas, com outros predadores, alimentos diferentes e riscos novos. Para uma espécie já pressionada por perda de habitat, mudanças climáticas, espécies invasoras e pesca, esse tipo de alteração pode somar mais uma ameaça.
Um risco ainda pouco medido
O estudo também levanta uma questão maior para a avaliação de risco ambiental. Se os cientistas analisam apenas a droga original e ignoram seus subprodutos, parte importante do problema pode passar despercebida.
A benzoilecgonina costuma aparecer em concentrações maiores no ambiente do que a própria cocaína, justamente porque ela chega ao esgoto após o metabolismo humano.
O trabalho não prova que os salmões estão condenados por esse tipo de poluição. Mas mostra que resíduos invisíveis do consumo humano podem mudar o comportamento de animais selvagens.
Ao Smithsonian Magazine, Jack Brand, ecólogo da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, disse que muitos organismos aquáticos em ambientes afetados por humanos vivem em um “coquetel diluído” de compostos biologicamente ativos. E a ciência ainda está apenas começando a medir esse impacto.
