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Pássaros desenvolveram penas super pretas para melhorar chances de transar

Se você assistiu ao Planet Earth da BBC, você se lembrará de uma das cenas mais engraçadas: a magnífica dança do acasalamento da ave-do-paraíso. Uma fêmea se aproxima de um macho, que revela suas plumas e inicia uma performance que mais lembra um bêbado dançando “Bohemian Rhapsody” em um karaokê. Mas quando o pássaro macho […]

Se você assistiu ao Planet Earth da BBC, você se lembrará de uma das cenas mais engraçadas: a magnífica dança do acasalamento da ave-do-paraíso. Uma fêmea se aproxima de um macho, que revela suas plumas e inicia uma performance que mais lembra um bêbado dançando “Bohemian Rhapsody” em um karaokê.

Mas quando o pássaro macho olha para a câmera, tudo fica escuro – muito escuro. Pule para os 2:34 minutos no vídeo abaixo. As penas deste pássaro são tão pretas que é impossível ver suas feições faciais, apenas radiantes azuis em um mar natural de Vantablack, o material mais escuro do mundo.


A pesquisa sobre essas penas negras começou quando o cientista Richard Prum, de Yale, avistou o pássaro em um museu e notou aquela abrangente escuridão. Era como “um buraco negro em uma prateleira”, disse a autora do estudo Dakota McCoy, de Harvard, ao Gizmodo. Prum percebeu que aquilo não poderia ser apenas pigmentação. Sua equipe acredita que estas aves-do-paraíso evoluíram naturalmente penas “super escuras” para tornar suas cores ainda mais brilhantes durante a dança do acasalamento.

“Neste caso é uma seleção sexual”, diz McCoy. “Machos tentam atrair fêmeas – na situação destes pássaros, as fêmeas escolhem com quem querem acasalar”. E elas são bem exigentes. “Uma única pena torta é o suficiente para que elas não acasalem. Os machos precisam encontraram maneiras para fazer suas cores parecerem ainda melhores para as fêmeas”.

Ao fazer uma tomografia e observar as penas em microscópios de elétrons, a equipe descobriu diferenças entre o formato das penas pretas comuns e das penas super escuras. A pena preta regular possuía farpas únicas atreladas a um talo principal, como qualquer outra pena. A pena super escura, por sua vez, possuía pequenas espinhas. Veja:

Pena reta comum (esquerda) e pena super escura (direita). (Imagem: McCoy et al, Nat. Comm (2018))

Essas microestruturas demonstram “absorção estrutural”, da mesma forma que materiais super escuros criados por humanos. “Quando você lida com superfícies lisas, a luz é completamente absorvida pela pena”, disse McCoy. Neste caso, a pena absorve 99,95% da luz diretamente direcionada a ela. Parece que a necessidade em reproduzir-se fez a evolução criar o seu próprio material super escuro, feito da proteína queratina. “Isso me faz pensar que talvez possamos produzir estruturas super escuras usando materiais mais baratos”, disse a cientista.

Pelo menos um pesquisador não envolvido com o estudo, Trevor Price, da Universidade de Chicago, considerou a pesquisa “muito interessante e bem direta”, disse ele ao Gizmodo por email. Ele escreveu que faz sentido este tipo de dispersão aumente a absorção.

Aprender mais sobre absorção da luz é importante para tecidos têxteis ou até painéis solares. Mas McCoy alerta que pode não ser uma boa ideia alinhar seus painéis solares com estas penas – você notará no vídeo que elas são super escuras apenas quando olhadas diretamente de frente.

Mais pesquisa é necessária para entender por completo o papel destas penas no comportamento de pássaros, de acordo com o artigo publicado hoje na Nature Communications. Mas caso a hipótese da equipe esteja correta, então a evolução está demonstrando que a procriação pode levar a aparências peculiares, especialmente em pássaros como estes.

“Eles estão perfeitamente envolvidos em seu proposito: se embelezarem para as fêmeas”, disse McCoy.

[Nature Communications]

Imagem de topo: Edwin Scholes