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Criadores de zines declaram guerra à arte feita por IA

Artistas e escritores veem conflito entre a lógica artesanal dos zines e o uso de ferramentas de inteligência artificial na criação.
Imagem: Wikimedia Commons

Os zines, pequenas publicações independentes feitas muitas vezes com papel comum, ilustrações manuais e tiragens reduzidas, entraram em uma nova disputa cultural. Criadores ligados a essa cena reagem ao uso de inteligência artificial em uma arte historicamente marcada pelo improviso, pela autoria direta e pela estética “faça você mesmo”.

A discussão ganhou força porque alguns artistas, designers e produtores começaram a testar IA em projetos de zines, principalmente em versões digitais. Para parte da comunidade, isso ameaça justamente o que torna esse formato tão especial: a presença humana visível, com erros, recortes, colagens e decisões criativas feitas sem automação.

Uma cultura nascida do improviso

Os zines têm ligação antiga com movimentos culturais e políticos. Eles circularam em cenas como o ativismo queer, o feminismo negro e o movimento punk riot grrrl.

Diferentemente de revistas tradicionais, essas publicações costumam nascer fora de grandes editoras. Em muitos casos, alguém escreve, desenha, diagrama, imprime e distribui por conta própria.

Essa baixa barreira de entrada virou parte da identidade do formato. Basta papel, caneta e materiais para colagem. Ou seja, o valor não está só no resultado final, mas também no processo.

Por que a IA incomoda tantos criadores

Ao The Guardian, Rachel Goldfinger, editora de vídeo e ilustradora baseada nos EUA, publicou um zine contra IA. Para ela, a tecnologia reduz a capacidade das pessoas de pensar criticamente por conta própria.

“De todas as formas de arte das quais participo, sinto que os zines são os que fazem menos sentido para usar IA. Eles deveriam ser feitos à mão e meio improvisados”, afirmou.

Goldfinger também diz que não quer acelerar sua criação. Segundo ela, encurtar o processo “arruína o ponto” do trabalho.

Experimentos digitais dividem opiniões

Apesar da resistência, algumas experiências já apareceram. O designer Jesse Pimenta e o escritor Cheyce Batchelor criaram um zine de 97 páginas inspirado nos anos 1990 usando ferramentas de IA do Figma. Eles elogiaram a facilidade para reorganizar elementos sem exigir tanto esforço mental.

Em 2023, o engenheiro de TI Steve Simkins usou IA para criar o site de um zine fotográfico online. Ele forneceu os links das imagens e pediu ao ChatGPT ajuda com HTML, ajustando o código até chegar ao resultado desejado.

Na época, Simkins via a IA como um software democratizante. Ou seja, a ideia era ajudar artistas sem habilidades técnicas, sem substituir a obra principal.

Zines contra a própria inteligência artificial

A reação também virou produção artística. Maddie Marshall, editora de vídeo e ilustradora em Melbourne, na Austrália, passou um ano criando um zine de 92 páginas contra a tecnologia. Ela decidiu fazer o projeto após sentir pressão para usar IA no trabalho.

Já Ione Gamble, fundadora da Polyester, publicação feminista de arte e cultura em Londres, afirma que não usa nem apoia IA para imagens ou textos. A equipe passou a verificar artigos recebidos com ferramentas de detecção de IA.

Zoe Thompson, fundadora da Sweet-Thang, vê a criação artística como um desejo humano. Isso porque, para ela, usar IA pode transformar a prática em teste de ferramenta, sem a mesma sensação de autoria.

Convivência difícil, mas inevitável

A pergunta agora não é apenas se a IA pode produzir um zine, mas se isso ainda carrega o mesmo espírito. Para Gamble, a convivência terá de existir porque a tecnologia já existe, mas talvez não seja harmoniosa.

Simkins também mudou parte de sua visão. Hoje, ele ainda admite o uso da IA como ferramenta, mas defende que arte deve ser feita por pessoas e para pessoas.

Por fim, Jeremy Leslie, fundador da loja MagCulture, adota uma posição mais aberta. Ele afirma que não se interessa tanto por saber se um zine usou IA. O critério, segundo ele, é se a publicação consegue ser interessante, inovadora e envolvente.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo principalmente sobre ciência, tecnologia e cultura nerd e geek. Entusiasta da astronomia, acompanha temas ligados à exploração espacial e é fã de Star Trek.