Como as células se desdobram para fechar uma ferida no corpo
Para fechar uma ferida no corpo, as células epiteliais se movimentam coletivamente para reparar o tecido epitelial. Além disso, as células fecham uma ferida dependendo da geometria — ou da curvatura da borda do machucado — de acordo com um estudo publicado na última segunda-feira (18).
Em bordas côncavas, as células se contraem coletivamente, puxando o tecido em um movimento similar à costura. Por outro lado, as células fecham feridas em bordas convexas, estendendo excessos de membranas que se migram para a abertura.
Essas duas estratégias — de contração e junção — já foram documentadas, mas, até então, o mecanismo por trás da ação das células era um mistério.
O estudo revelou que o retículo endoplasmático (RE), organelo exclusivo de células eucariontes e uma das maiores estruturas em uma célula, desempenha um papel crucial no movimento celular.
De acordo com os cientistas da Índia e do Reino Unido, o RE consegue “sentir” a curvatura de uma ferida e adotar a melhor resposta das células para fechar a abertura do tecido.
Simran Rawal, pesquisadora do laboratório de Tamal Das do Instituto Tata de Pesquisa Fundamental (TIFR) e principal autora do estudo, decidiu investigar as diferentes respostas das células às feridas com base na forma.
Como as células reconhecem o formato para fechar feridas?

Imagem: Simran Rawal/Divulgação
Para desvendar o mistério, Rawal, Das e cientistas indianos e britânicos realizaram diversas técnicas, como microscopia em alta resolução em culturas de células. Os cientistas observaram o padrão de ação das células para fechar feridas em ratos. Assim, eles descobriram que o movimento com base na curvatura se muda na morfologia do RE.
O RE, de acordo com o estudo, se reorganiza em estruturas tubulares em feridas convexas e em formas de pilhas em bordas côncavas. Essa reestruturação se mostrou decisiva.
Mas, além disso, outros componentes celulares, como os microtúbulos e a actina, se envolvem nesse processo. Em bordas convexas, por exemplo, os microtúbulos são responsáveis por habilitar a transformação tubular do RE.
Pradeep Keshavanarayana, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e coautor do estudo, desenvolveu um modelo matemático para quantificar as forças necessárias para as células conseguirem fechar feridas.
O modelo demonstrou que o RE traduz sinais físicos externos, como o formato de uma ferida, em sinais bioquímicos internos. “Foi fascinante descobrir que organelas intracelulares, como o RE, também respondem a sinais mecânicos em seus respectivos ambientes”, afirmou Rawal.
O estudo destaca, portanto, um fator surpreendente na cura de feridas: além dos sinais químicos, o formato é responsável por como as células se reorganizam e se movimentam para reparar os danos.
