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Bebês geneticamente modificados não estão longe da realidade, afirma OMS

As novas diretrizes são restritivas, mas oferecem maneiras de avançar com pesquisas na área. Entenda como isso é possível.
Imagem: Mark Schiefelbein (AP)

Um comitê de especialistas diz que a edição do genoma hereditário de humanos ainda é muito arriscada e que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deve assumir um papel de liderança quando se trata de regulamentar essa biotecnologia emergente. As novas diretrizes, anunciadas na última segunda-feira (12), levaram dois anos para serem elaboradas.

A OMS reuniu o comitê em 2019 em resposta a um escândalo científico envolvendo He Jiankui, um biofísico que trabalhava na Southern University of Science and Technology em Shenzhen, na China. Como o mundo aprendeu em novembro de 2018, o cientista usou a ferramenta de edição de genes CRISPR para modificar embriões humanos, resultando no nascimento de meninas gêmeas com imunidade ao HIV. Se isso não fosse chocante o suficiente, ele forjou documentos de ética e enganou participantes do estudo. Autoridades chinesas o declararam culpado de conduzir um experimento ilegal, e Jiankui atualmente cumpre uma sentença de três anos.

O escândalo resultou em um clamor público, com alguns especialistas defendendo uma moratória na edição do genoma humano hereditário por conta do estado nascente da tecnologia e os riscos desconhecidos. 

Como o relatório aponta, a edição de genes acontece de vários tipos, incluindo edição somática e de linha germinativa — esta última afeta todas as células pertencentes a um embrião, incluindo espermatozoides e óvulos. As edições nas células germinativas são controversas porque são hereditárias, o que significa que as características recém-conferidas seriam passadas para a próxima geração. As modificações somáticas, que podem afetar células locais do corpo, como a medula óssea, não são hereditárias.

Apesar disso, o comitê da OMS expressou cautela sobre os dois tipos de edição de genes. Soumya Swaminathan, membro do comitê e cientista-chefe do relatório, escreveu que “há importantes áreas de incerteza contínua quanto aos benefícios e riscos potenciais [da modificação de genes], e algumas lacunas no entendimento científico como efeitos colaterais e riscos de longo prazo”.

O comitê disse que é muito cedo para permitir experimentos de linhagem germinativa como o que foi realizado por Jiankui. Esta recomendação corresponde à posição da OMS sobre o assunto e às conclusões de um relatório de 2020 elaborado pela Academia Nacional de Medicina dos EUA e o Royal Society do Reino Unido. O novo relatório segue descrevendo por que a governança global da edição do genoma é necessária e por que os governos devem reprimir e legislar limites mais rígidos para a edição do gene humano.

Ainda assim, o comitê não deixou de observar os benefícios potenciais da edição do genoma, destacando as terapias de genes somáticos para o tratamento do HIV, doença falciforme e amiloidose transtirretina (uma doença de progressão lenta que atinge o sistema nervoso).

“À medida que a pesquisa global se aprofunda no genoma humano, devemos minimizar os riscos e aproveitar os meios pelos quais a ciência pode levar a uma saúde melhor para todos, em qualquer lugar”, disse Swaminathan em comunicado.

O grupo também destacou a importância de garantir igualdade de acesso às intervenções decorrentes desta pesquisa. Questões mais acentuadas relacionadas a direitos de propriedade intelectual, preços de terapias e facilidade de acesso também foram discutidas.

“A edição do genoma humano tem o potencial de avançar nossa capacidade de tratar e curar doenças, mas o impacto total só será percebido se a implementarmos para o benefício de todas as pessoas, em vez de alimentar mais desigualdades de saúde entre os países”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, no comunicado.

O comitê apresentou vários cenários hipotéticos envolvendo o desenvolvimento de várias terapias genéticas, incluindo uma terapia somática problemática para o tratamento da doença falciforme. O ensaio clínico para este provável cenário foi realizado na África Ocidental, onde a doença é proeminente. O exercício serviu como um alerta, mostrando o surgimento de uma terapia para a doença falciforme em um local onde ela é mais necessária, mas onde a maioria das pessoas poderia não ter condições financeiras.

Leonard Zon, um especialista em terapia genética da Universidade de Harvard que não estava envolvido com o comitê, disse ao New York Times que é “muito favorável” às recomendações feitas por este grupo. 

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Os governos agora terão que decidir como seguir em frente. Mas, de acordo com a declaração da OMS, ao menos eles podem recorrer a essas diretrizes, que envolveram contribuições de “centenas de participantes representando diversas áreas de todo o mundo, incluindo cientistas e pesquisadores, grupos de pacientes, líderes religiosos e povos indígenas”.