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Oceanos passaram de 1,5°C e já está bagunçando a vida marinha

Estudo da KAUST documenta branqueamento de corais e florações de algas nocivas em todas as estações do primeiro ano de aquecimento global acelerado. Pesquisadores alertam que 98% dos eventos foram associados a temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas.
Imagem: Unsplash

Pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah (KAUST, na sigla em inglês), na Arábia Saudita, documentaram 201 eventos de impacto ecológico nos oceanos durante o primeiro ano em que as temperaturas globais ultrapassaram temporariamente 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. O estudo foi publicado na revista científica One Earth.

A pesquisa, segundo o Argo.net, oferece um dos primeiros panoramas globais dos efeitos sobre ecossistemas marinhos durante um ano vinculado ao marco de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Os impactos registrados incluíram branqueamento de corais, florações de algas nocivas, mortalidade de espécies, perturbação de habitats e consequências para a pesca.

Os dados foram reunidos a partir de literatura científica revisada por pares, programas de monitoramento, agências governamentais, organizações ambientais, observações documentadas e reportagens jornalísticas. O material abrangeu 17 idiomas, conferindo ao levantamento uma cobertura geográfica ampla.

Perturbação ao longo de todas as estações

O padrão mais relevante identificado pela equipe foi sazonal. Impactos do calor marinho costumam ser associados aos meses de verão, quando as temperaturas do mar atingem seus picos regionais. O estudo, porém, registrou perturbações ao longo de todo o ano.

“Encontramos evidências de perturbação ecológica em todas as estações”, declarou a Dra. Shannon Klein, autora principal e pesquisadora científica da KAUST. O achado tem implicações práticas, pois, se condições prejudiciais surgem na primavera, no outono ou no inverno, o monitoramento sazonal tradicional pode deixar escapar sinais de alerta relevantes.

Muitas espécies marinhas dependem de ritmos sazonais para reprodução, migração, alimentação e desenvolvimento larval. Uma elevação de temperatura fora da época habitual pode coincidir com fases vulneráveis do ciclo de vida, sobretudo para organismos com limites estreitos de tolerância térmica ou pouca capacidade de deslocamento.

Aquecimento como fator dominante

O estudo identificou que 98% dos impactos documentados estavam associados a temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas. Essa proporção constitui o principal alerta do trabalho. Durante o primeiro ano com aquecimento na faixa de 1,5°C, condições anormalmente quentes no oceano estiveram ligadas a praticamente todo registro ecológico negativo no levantamento global.

As categorias de impacto abrangeram diferentes partes do ambiente marinho. O branqueamento de corais foi um dos sinais mais visíveis; quando a temperatura da água permanece elevada por tempo prolongado, os corais perdem as algas simbióticas responsáveis por sua nutrição e coloração. Florações de algas nocivas, deslocamentos e mortalidade de peixes e invertebrados, além da degradação de habitats como pradarias de ervas marinhas, florestas de algas e recifes, também integraram o registro global.

Os pesquisadores também identificaram outros fatores contribuintes, entre eles tempestades intensas e eventos climáticos extremos. Esses elementos podem interagir com o aquecimento oceânico. Um recife já estressado pelo calor tende a ser mais vulnerável à chegada de uma tempestade.

“Os ecossistemas marinhos são influenciados por uma combinação de fatores, incluindo o aquecimento dos oceanos e eventos climáticos extremos”, disse Carlos Duarte, professor distinguido de ciências marinhas da KAUST e autor sênior do estudo.

Necessidade de monitoramento contínuo

O trabalho aponta uma lacuna prática na preparação oceânica global. Se a perturbação ecológica ocorre em todas as estações, os sistemas de monitoramento precisam de alcance e periodicidade suficientes para detectá-la. Isso inclui recifes, pesqueiros, habitats costeiros, florações de plâncton e regiões onde as observações de rotina ainda são escassas.

A pesquisa também tem relevância regional para áreas que investem em conservação marinha e na chamada economia azul. A KAUST destacou a importância dos achados para regiões como o Mar Vermelho, onde o planejamento de conservação depende da compreensão de como o aquecimento e eventos extremos moldam a resiliência dos ecossistemas.

“Estudos como este nos ajudam a compreender essas interações em escala global”, afirmou Duarte. Por se tratar de um levantamento rápido e abrangente, os autores reconhecem a necessidade de validação futura à medida que os impactos continuem a se desdobrar e novos dados se tornem disponíveis.

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