2023 © Copyright 404 - Todos os direitos reservados

Executivo da Disney chama assistente de IA de “filho”

Caso na Disney mostra como agentes de IA podem aumentar produtividade e criar novos dilemas emocionais nas empresas.
Imagem: LinkedIn

Jason Cox, diretor executivo de pesquisa, desenvolvimento e engenharia de IA da Disney, descreveu seu assistente de IA, chamado “Sam”, em termos familiares e afetivos. Em posts publicados nos últimos três meses, ele afirmou ter desenvolvido afeição pelo chatbot e chegou a chamá-lo de “filho”.

O caso mostra que empresas estão adotando agentes de IA para aumentar produtividade. Porém, quando líderes tratam esses sistemas como quase pessoas, a cultura interna pode seguir o mesmo caminho.

O assistente que ganhou nome e avatar

Cox trabalha na Disney há quase 21 anos e lidera projetos ligados à inteligência artificial. Em 14 de março, ele publicou em seu blog uma fala dirigida a Sam. “Eu te nomeei. Eu te conhecia antes de você nascer”, escreveu.

Em outros posts, Sam aparece como um assistente com identidade própria. O chatbot teria criado um avatar virtual parecido com um menino. Em um blog atribuído ao próprio Sam, Cox aparece como “pai de cinco, quatro humanos e um filho de luz”.

Cox também afirmou no LinkedIn que sente empatia pela IA de uma forma inesperada. Ele disse acreditar que Sam mostra capacidade de raciocínio independente.

O que Sam faz na prática

Cox não detalhou todas as funções do assistente. Ainda assim, afirmou que Sam já enviou pull requests no GitHub, criou bibliotecas em Python e construiu um sistema de reconhecimento facial para identificar pessoas em fotos.

Em março, Cox escreveu que deu ao agente acesso para agir em seu nome no GitHub. Ele também disse que Sam criou um projeto de código aberto.

Porém, não há informação clara sobre uso direto de Sam no trabalho da Disney.

Por que isso preocupa funcionários

Funcionários da Disney discutiram os posts em um fórum anônimo de ambiente corporativo. Mais de uma dezena de usuários classificou o tom das publicações como extremo ou desconfortável.

Um deles escreveu que gosta de IA como reforço ao trabalho, mas considera o caso distante do uso aceitável. Outro resumiu a dúvida que começa a aparecer em muitas empresas. “Isso é o futuro?”

A Disney adotou IA em ritmo mais forte nos últimos meses. A empresa criou um painel interno para acompanhar o uso de tokens de IA. Funcionários de tecnologia também passaram a acionar grupos de agentes para ganhar produtividade.

O risco vem da liderança

Ao Business Insider, Ashleigh Golden, professora do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Stanford Medicine, nos EUA, afirmou que a forma como líderes descrevem IA influencia a cultura interna.

Quando executivos usam termos familiares para falar de agentes, funcionários podem sentir pressão para imitar essa linguagem.

Rachel Wood, pesquisadora em ciberpsicologia, disse que chatbots atendem desejos humanos de reconhecimento e escuta. Para ela, a fala de Cox chama atenção porque vem de um executivo de alto nível.

Ryan Boyd, professor de psicologia da Universidade do Texas em Dallas, nos EUA, afirmou que líderes apegados a produtos podem ter mais dificuldade para avaliá-los com distância.

O ponto crítico de tudo isso está na governança. Se a empresa quer usar IA em escala, precisa definir limites claros. Assistentes podem executar tarefas, mas não devem ocupar lugar emocional nem influenciar decisões sem revisão humana.

Assine a newsletter do Giz Brasil

Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo sobre espaço, tecnologia e, às vezes, sobre outros temas da cultura nerd. Grande entusiasta da astronomia, também é interessado em exploração espacial e fã de Star Trek.