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Perseverance revela vestígios de rios antigos em Marte

Rover detecta delta de rio enterrado em Marte e encontra uma das evidências mais antigas de água fluindo no planeta.
Imagem: NASA/Reprodução

O rover Perseverance, da NASA, encontrou sob o solo de Marte um dos indícios mais antigos já obtidos de água fluindo na superfície do planeta. Usando radar de penetração no solo, o veículo identificou restos enterrados de um antigo delta de rio na cratera Jezero, região do hemisfério norte marciano que os cientistas acreditam ter abrigado água em abundância no passado remoto.

A descoberta importa por dois motivos ao mesmo tempo. Primeiro, porque ajuda a reconstruir uma fase muito antiga da história marciana. Segundo, porque deltas de rio são ambientes que, na Terra, concentram sedimentos e criam nichos favoráveis à vida microbiana.

Em um planeta hoje frio e árido, isso torna Jezero um dos lugares mais promissores para investigar se Marte já foi habitável.

O que o radar encontrou sob a superfície

Os pesquisadores explicaram que o Perseverance detectou estruturas geológicas enterradas a até 35 metros de profundidade ao longo de 6,1 quilômetros percorridos dentro da cratera. O que apareceu nos dados foram sedimentos em camadas e superfícies erodidas, características compatíveis com um ambiente de delta.

Um delta é um depósito de sedimentos em forma de leque, criado quando um rio deságua em um corpo maior de água, como um lago. É como se o fluxo de água fosse desacelerando e deixasse para trás camadas de material, registrando no terreno a história desse encontro entre rio e lago.

Um registro muito antigo da água em Marte

A equipe estimou que esse delta enterrado tenha entre 3,7 e 4,2 bilhões de anos. Como Marte e a Terra se formaram há cerca de 4,5 bilhões de anos, isso significa que a estrutura surgiu relativamente cedo na história do planeta vermelho.

Os cientistas também destacaram que esse delta subterrâneo é mais antigo do que uma feição superficial semelhante, chamada Delta Ocidental, localizada nas proximidades e datada entre 3,5 e 3,7 bilhões de anos. Isso sugere que Jezero preserva diferentes capítulos da história da água em Marte, quase como páginas geológicas empilhadas ao longo do tempo.

Como o Perseverance conseguiu “enxergar” o subsolo

A detecção foi feita com o instrumento RIMFAX, que envia pulsos de radar para baixo e registra o sinal refletido por estruturas subterrâneas. Com isso, os cientistas conseguem montar uma espécie de mapa tridimensional do que está escondido sob o terreno.

Os novos resultados vieram dos dados mais profundos já coletados pelo instrumento até agora. O rover obteve eles entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024, ao longo de 250 dias marcianos.

Ou seja, esse tipo de técnica funciona como um exame que revela camadas invisíveis a olho nu. Em vez de depender apenas do que está exposto na superfície, os pesquisadores podem investigar o que foi enterrado e preservado por bilhões de anos.

Por que Jezero continua sendo um alvo tão importante

Segundo Emily Cardarelli, cientista planetária da Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos EUA, integrante da equipe científica do Perseverance e autora principal do estudo, as feições mapeadas pelo RIMFAX indicam que a cratera Jezero abrigou um ambiente antigo rico em água e capaz de preservar biossinais antes mesmo da formação do Delta Ocidental.

No ano passado, cientistas anunciaram que uma amostra de rocha coletada pelo Perseverance em Jezero continha um biossinal em potencial, sugestivo de vida microbiana antiga. Ao mesmo tempo, eles ressaltaram que os minerais encontrados também podem se formar por processos não biológicos. Essa rocha tinha idade estimada entre 3,2 e 3,8 bilhões de anos.

Uma peça a mais no quebra-cabeça marciano

Desde 2021, o Perseverance explora a cratera Jezero, onde os cientistas acreditam que canais de rios atravessaram a borda da cratera e alimentaram um lago antigo. Agora, os dados subterrâneos acrescentam profundidade literal e científica a essa história.

David Paige, também da UCLA e coautor do estudo, afirmou que foi muito empolgante ver o RIMFAX fornecer uma visão tão detalhada desses depósitos e ajudar a resolver o quebra-cabeça sobre sua origem. Para ele, o resultado reforça que o radar de penetração no solo se tornou uma ferramenta extremamente valiosa para estudar a geologia planetária.

Com isso, Marte vai revelando aos poucos um passado muito diferente do planeta seco e gelado que conhecemos hoje. Assim, cada missão acrescenta uma nova peça a esse quebra-cabeça e mostra que a história do nosso vizinho rochoso foi bem mais dinâmica, úmida e complexa do que parecia.

A revista Science Advances publicou o estudo.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo principalmente sobre ciência, tecnologia e cultura nerd e geek. Entusiasta da astronomia, acompanha temas ligados à exploração espacial e é fã de Star Trek.