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IA no trabalho pode virar ferramenta de vigilância

Enquanto alguns profissionais usam IA para ganhar produtividade, outros passam a ser vigiados, avaliados e controlados por sistemas automáticos.
Imagem: RawPixel/

A discussão sobre inteligência artificial no trabalho costuma girar em torno de uma pergunta simples: ela vai acabar com empregos? Mas uma ameaça mais silenciosa já aparece em empresas do Reino Unido, Quênia e Estados Unidos: o uso da IA para vigiar, medir e controlar trabalhadores.

O impacto importa porque a tecnologia não muda apenas tarefas. Ela também muda quem decide o ritmo, a pressão e a autonomia dentro do ambiente profissional.

A nova divisão criada pela IA

De acordo com o The Guardian, a inteligência artificial começa a separar trabalhadores em dois grupos. De um lado, estão profissionais que usam a tecnologia como ferramenta para ampliar habilidades. Isso inclui analistas, consultores, advogados, acadêmicos, gestores e pessoas em cargos com mais autonomia.

Nesses casos, a IA pode funcionar como uma espécie de copiloto digital. Ela ajuda a acelerar tarefas repetitivas, organizar informações e liberar tempo para decisões mais criativas.

Do outro lado, estão trabalhadores que não usam a IA. Eles são usados por ela. A tecnologia aparece em sistemas de escala, monitoramento, rotas, metas e painéis automáticos de desempenho.

Ou seja, a IA não atua como assistente. Ela vira uma chefe invisível.

Quando o algoritmo decide o ritmo

Esses sistemas já definem quem recebe determinado turno, quanto tempo uma tarefa deve levar e se alguém trabalha no limite máximo de produtividade. A lógica parece técnica, mas o efeito recai sobre o corpo e a rotina de quem trabalha.

Um dado chama atenção: um terço dos empregadores do Reino Unido já usa tecnologias conhecidas como “bossware” para monitorar a atividade online dos funcionários.

Essas ferramentas mostram como a vigilância no trabalho pode se tornar mais intensa. Em vez de observar apenas resultados, empresas passam a medir cliques, pausas, deslocamentos, chamadas e movimentos.

O problema não é só técnico

O avanço desse modelo já aparece em armazéns, entregas, plataformas de trabalho sob demanda, varejo, hotelaria, logística e atendimento ao cliente. Nesses setores, sistemas automáticos podem pressionar trabalhadores sob a justificativa de eficiência.

O risco também pode chegar a escritórios, hospitais e escolas. Funcionários de empresas como Amazon relatam vigilância e pressão para usar IA em busca de mais produtividade, mesmo quando a tecnologia atrasa o trabalho. A Meta também planeja capturar teclas, movimentos do mouse e cliques de funcionários para treinar seus modelos de IA.

O futuro do trabalho está em disputa

Pesquisas sobre convivência entre trabalhadores e IA indicam que o problema mais urgente não é apenas o desemprego em massa imediato. A questão central envolve a distância crescente entre quem ganha habilidade, autonomia e bem-estar com a tecnologia e quem perde controle sobre a própria rotina.

O trabalho não envolve só renda. Isso porque ele também envolve dignidade, confiança e capacidade de contestar decisões. Quando um sistema mede tudo, mas ninguém entende ou questiona seus critérios, a tecnologia deixa de parecer progresso. Ela passa a parecer vigilância com roupa de inovação.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo principalmente sobre ciência, tecnologia e cultura nerd e geek. Entusiasta da astronomia, acompanha temas ligados à exploração espacial e é fã de Star Trek.