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Trigo do futuro pode misturar genética e híbridos para resistir à seca

Pesquisadores modificam plantas com gene de girassol para resistir à seca e criam sementes híbridas no Kansas.

Trigo do futuro pode misturar genética e híbridos para resistir à seca

Pesquisadores norte-americanos trabalham no desenvolvimento de sementes híbridas e geneticamente modificadas de trigo no Kansas, nos EUA. O objetivo é aumentar a produtividade e recuperar a competitividade da cultura, que perdeu espaço para milho e soja nas últimas três décadas. Os experimentos acontecem nos distritos norte-americanos de Manhattan, onde plantas são modificadas com gene de girassol a fim de resistir à seca, e em Junction City, onde se desenvolvem sementes híbridas.

As iniciativas buscam tornar o trigo lucrativo novamente para os agricultores norte-americanos. Isso porque, entre 1995 e 2025, o plantio de trigo nos Estados Unidos caiu, enquanto o plantio de milho e soja se expandiu.

Os Estados Unidos foram o maior exportador mundial de trigo até 2017, de acordo com dados federais divulgados pela Reuters.

Experimentos combinam modificação genética e hibridização

Em uma câmara trancada do tamanho de um freezer industrial localizada em Manhattan, nos EUA, dezenas de plantas de trigo crescem sob luzes LED brilhantes. Dessa forma, as plantas estão sendo geneticamente modificadas com um gene de girassol para resistir à seca.

A 32 quilômetros dali, em um centro de pesquisa em Junction City, cientistas desenvolvem sementes híbridas de trigo. As sementes prometem rendimentos de colheita mais altos e consistentes à medida que a seca se torna mais comum nas Planícies.

Durante décadas, o trigo ficou para trás tecnologicamente em comparação com o milho e a soja. Dessa forma, os agricultores do país têm cultivado menos trigo, às vezes plantando-o apenas em rotação com outras culturas para preservar a saúde do solo.

Jon Rich, chefe de operações de trigo híbrido da Syngenta, afirmou: “o trigo não tem sido, por falta de uma palavra melhor, uma cultura tecnificada”. Os compradores de trigo têm sido mais resistentes ao trigo transgênico devido, em parte, ao ceticismo do consumidor. A maior parte do milho e da soja transgênicos é usada como ração animal.

Corteva planeja lançamento comercial em 2027

A empresa Corteva planeja lançar comercialmente suas sementes nos Estados Unidos em 2027. Chuck Magro, diretor executivo da Corteva, afirma que a empresa “decifrou o código”. Segundo ele, o trigo híbrido de inverno vermelho duro da companhia, usado para fazer pão, pode aumentar o rendimento das colheitas em 20%.

Por sua vez, a Syngenta, grupo suíço de agroquímicos e sementes da estatal chinesa Sinochem, vende sementes de trigo híbrido de primavera para agricultores nos estados das Planícies do Norte desde 2023. Em 2025, a empresa atingiu entre 12 mil e 15 mil acres. Esse número representa uma fração dos 45 milhões de acres de trigo semeados anualmente nos Estados Unidos.

A Corteva e a Syngenta projetam retornos bilionários eventualmente com seus investimentos em trigo híbrido. As empresas também trabalham em outros híbridos nos próximos anos, incluindo o trigo macio usado em produtos de confeitaria e macarrão de estilo asiático.

Além disso, as empresas enfrentam a incerteza sobre a disposição dos agricultores em pagar por sementes que podem custar o dobro das ofertas convencionais.

Milho superou trigo em produtividade com sementes híbridas

Os Estados Unidos se tornaram uma potência na produção de milho em parte devido a um avanço do início do século 20 que escapou ao trigo: as sementes híbridas. Essas sementes produzem mais grãos mesmo sob condições estressantes, como a seca, por exemplo.

O rendimento médio do milho nos Estados Unidos aumentou de cerca de 25 bushels por acre na década de 1930 para 186,5 bushels em 2025. Porém, o rendimento do trigo aumentou em grau menor durante o mesmo período.

Em fevereiro de 2026, moleiros e cientistas da indústria do trigo se reuniram para uma reunião anual em Olathe, Kansas. Isso porque as perspectivas econômicas para o trigo, uma cultura cultivada há 10 mil anos, estão em jogo.

Trigo transgênico enfrenta obstáculos regulatórios e de mercado

As plantas no laboratório de Manhattan foram geneticamente modificadas com uma característica de resistência à seca conhecida como HB4. A característica foi desenvolvida pela Bioceres Crop Solutions, da Argentina. As plantas foram criadas para tolerar um herbicida específico que atualmente não é usado no trigo.

Os EUA aprovaram o grão para produção pelo USDA em 2024. Porém, os agricultores não plantaram nenhum grão em campos norte-americanos. As linhagens genéticas de trigo variam por região. Pesquisadores de universidades públicas estão testando se as características HB4 funcionarão no trigo cultivado nas Planícies dos EUA.

Os testes de campo ainda estão a pelo menos dois anos de distância, segundo Brad Erker, da Colorado Wheat Research Foundation. A fundação é um grupo comercial governado por agricultores que fez parceria com a Bioceres para comercializar o HB4 nos Estados Unidos.

A venda de sementes de trigo transgênico está ainda mais distante. Erker afirmou que isso ocorrerá em 2030 ou 2032, na melhor das hipóteses. A comercialização só acontecerá se grandes compradores de trigo dos EUA, como Japão e México, concordarem em permitir as compras.

Os agricultores cultivam sementes geneticamente modificadas para a grande maioria do milho e da soja dos EUA. Essas sementes oferecem tolerância a herbicidas e resistência a pragas que reduzem a produtividade. Cientistas afirmam que essa é uma esperança para o trigo também. A tecnologia transgênica poderia eventualmente oferecer características que aumentam a nutrição ou a qualidade dos grãos.

Indústria busca reverter queda no consumo de trigo

Allan Fritz, melhorista de trigo de longa data da Kansas State University, disse: “Qualquer coisa que dê aos nossos produtores uma vantagem pode melhorar a lucratividade – isso seria bem-vindo”.

Além disso, Brad Erker afirmou: “Isso faz parte do objetivo com isso, tornar mais atraente cultivar trigo”. Ele acrescentou: “Não temos tecnologia transgênica para nossos agricultores no trigo, e milho e soja e girassóis e beterraba sacarina e algodão têm”.

Por fim, os agricultores enfrentam uma tendência de queda de três décadas no consumo de farinha per capita. Jane DeMarchi, presidente da North American Millers’ Association, comentou sobre as novas diretrizes dietéticas federais da administração Trump e a ascensão de dietas sem glúten: “O fato de estarmos tendo que dizer ‘pão é comida de verdade’ – é lamentável”. Segundo DeMarchi, as novas diretrizes estigmatizam alimentos à base de grãos, diminuindo ainda mais o mercado.

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