Cientistas identificaram relâmpagos em tempestades isoladas e pouco visíveis de Júpiter, apelidadas de “stealth superstorms” (ou “supertempestades furtivas”). O estudo, publicado em AGU Advances, analisou dados coletados pela sonda Juno entre 2021 e 2022 e mostrou que essas descargas podem ajudar a explicar melhor como funciona a convecção na atmosfera do maior planeta do Sistema Solar.
A descoberta importa porque relâmpagos funcionam como marcadores naturais de regiões agitadas da atmosfera. Em Júpiter, eles ajudam pesquisadores a rastrear áreas onde gases sobem e descem, como em um caldeirão gigantesco. Entender esse processo é uma das chaves para decifrar a meteorologia extrema do planeta.
Por que os relâmpagos de Júpiter intrigam tanto
Pulsos de rádio de raios (círculos azul-turquesa) registrados pela sonda Juno. Imagem: NASA
Os relâmpagos jovianos já interessam cientistas há muito tempo, mas observá-los à distância não é simples. Por isso, muitos estudos se concentraram nos flashes mais fáceis de detectar, principalmente os mais fortes, vistos no lado noturno do planeta.
Essa limitação levou parte dos astrônomos a concluir que os relâmpagos de Júpiter seriam parecidos com os “superbolts” da Terra, as descargas mais intensas registradas aqui.
Só que essa interpretação começou a mudar quando a câmera de rastreamento estelar de alta sensibilidade da Juno detectou relâmpagos fracos e rasos. Esse resultado indicou que o planeta talvez abrigue uma variedade maior de raios do que se imaginava.
O que são as supertempestades furtivas
No novo trabalho, Michael Wong e colegas voltaram o olhar para um período em que os relâmpagos do Cinturão Equatorial Norte de Júpiter ficaram muito concentrados em tempestades poderosas e isoladas.
Os pesquisadores chamaram esses sistemas de “supertempestades furtivas” porque essa meteorologia incomum permitiu localizar com mais precisão a origem dos relâmpagos.
Em vez de depender apenas da luz visível, a equipe cruzou dados de dois instrumentos da Juno: o Radiômetro de Microondas e o experimento Waves, que detecta ondas de rádio. Essa escolha foi importante porque o relâmpago não produz só luz. Ele também gera radiação eletromagnética em outras faixas, incluindo sinais de rádio.
Por que olhar ondas de rádio muda o jogo
As ondas de rádio têm uma vantagem prática. Cientistas conseguem estudá-las mesmo quando nuvens ou outras camadas da atmosfera bloqueiam pistas visuais. É como tentar entender uma tempestade atrás de uma cortina: se você não consegue vê-la direito, ainda pode ouvir e medir seus sinais.
Com isso, os pesquisadores foram além dos flashes noturnos mais intensos que dominaram estudos anteriores. Eles passaram a enxergar uma atividade elétrica menos óbvia, escondida dentro dessas tempestades furtivas.
O que o estudo descobriu
Segundo os autores, os pulsos de rádio dos relâmpagos nessas supertempestades ocorreram em uma taxa de três flashes por segundo. Esse ritmo se aproxima do que estudos anteriores do lado noturno já tinham observado.
A grande dúvida está na força dessas descargas. Os cientistas afirmam que alguns raios podem ter intensidade parecida com a de um relâmpago médio da Terra. Mas também existe outra possibilidade mais impressionante. Por causa das grandes diferenças entre as frequências de rádio analisadas em Júpiter e na Terra, parte dessas descargas pode ser até 1 milhão de vezes mais forte do que um relâmpago terrestre.
Por enquanto, esse ponto segue em aberto. Ainda assim, o estudo amplia o retrato das tempestades de Júpiter e sugere que o planeta talvez esconda uma vida elétrica mais diversa, e mais complexa, do que os cientistas supunham.
