Sua terapia pode estar sendo gravada por IA
Sistemas de inteligência artificial já registram consultas médicas e sessões de saúde mental nos Estados Unidos. A tecnologia promete reduzir burocracia para profissionais, mas levanta dúvidas sobre consentimento, privacidade e uso de dados sensíveis.
O caso importa porque uma sessão de terapia pode envolver traumas, conflitos familiares, diagnósticos e informações profissionais. Quando esse conteúdo entra em uma ferramenta de IA, o paciente precisa saber quem acessa, onde fica e por quanto tempo.
Uma IA que escuta a consulta inteira
Em 2024, a Kaiser Permanente, um um consórcio norte-americano de gestão integrada de saúde, anunciou o uso da Abridge, uma ferramenta descrita como tecnologia de escuta ambiente. O sistema funciona como um escriba digital e ajuda profissionais a capturar notas clínicas durante atendimentos.
Na prática, a ferramenta grava consultas médicas inteiras. Isso inclui sessões de saúde mental, nas quais pacientes falam sobre assuntos íntimos e vulneráveis.
A Kaiser afirma que profissionais precisam obter consentimento antes de usar a Abridge. Relatos de profissionais indicam que essa autorização nem sempre vem acompanhada de explicações claras sobre armazenamento, acesso e tratamento das gravações.
O que os profissionais questionam
Ilana Marcucci-Morris, assistente social clínica licenciada da psiquiatria da Kaiser, decidiu não usar a plataforma com seus pacientes. Ela também integra um comitê de negociação.
Ela afirma que profissionais pediram detalhes sobre privacidade, conformidade com a HIPAA (Lei de Portabilidade e Responsabilidade do Seguro Saúde dos EUA) e proteções para os pacientes. A resposta, segundo ela, costuma ficar em garantias gerais.
“Eles não nos mostram”, disse Marcucci-Morris ao The Markup. “Se você não tem nada a esconder e está fazendo isso de forma ética, então mostre, prove.”
Pressão por produtividade entra no debate
A tecnologia também aparece em um contexto de carga maior de atendimento. Marcucci-Morris afirma que profissionais lidam com muitos pacientes, pouco intervalo e pressão por documentação rápida.
Ela diz que colegas com atrasos em registros clínicos recebem recomendação para usar a Abridge. Na visão dela, isso cria uma escolha sob pressão, já que o profissional pode temer punições no trabalho.
A Kaiser apresenta outra leitura. Brian Hoberman, diretor de informação do The Permanente Medical Group, afirmou que a Abridge reduz a carga de documentação e apoia o bem-estar dos médicos.
Por que dados de terapia exigem mais cuidado
Uma paciente entrevistada afirmou temer que conversas íntimas cheguem a empregadores, familiares ou outras pessoas. Adriana Webb, assistente social da Kaiser Panorama City, em Los Angeles, disse atender pacientes com diagnósticos sensíveis, como HIV e AIDS.
Nicole Alvarez, analista sênior de política tecnológica do Center for American Progress, afirma que dados de saúde mental podem gerar consequências em emprego, guarda de filhos, imigração e autorizações de segurança.
Segundo Alvarez, consentimento real exige mais do que avisar sobre a gravação. O paciente precisa entender armazenamento, compartilhamento e possíveis usos posteriores.
O que a Kaiser diz sobre os dados
A Kaiser afirma que ninguém passa por gravação sem conhecimento e consentimento. A instituição diz guardar gravações por no máximo 14 dias e cumprir exigências da HIPAA e seus próprios padrões de segurança.
A empresa também afirma que não usa os dados coletados para treinar modelos de IA. Abridge atua em mais de 14 idiomas e está disponível em 40 hospitais e mais de 600 consultórios médicos em oito estados dos EUA.
