Google vai bloquear apps Android de devs não verificados no Brasil
O Google definiu 30 de setembro de 2026 como a data a partir da qual passará a exigir a verificação de identidade de desenvolvedores Android em quatro países. Brasil, Indonésia, Singapura e Tailândia são os primeiros mercados afetados pela nova política.
A medida, de acordo com o The Hacker News, determina que celulares Android certificados nesses países bloqueiem a instalação convencional de aplicativos cujos desenvolvedores não tenham registrado uma identidade junto ao Google. A restrição vale independentemente da loja usada: o Google Play, a Samsung, a Xiaomi, a OPPO, a vivo, a Honor e a Transsion estão todas incluídas no escopo da exigência.
Dispositivos certificados são aqueles que saem de fábrica com os serviços do Google e o Play Protect. Segundo contagem do F-Droid, repositório de aplicativos de código aberto, esse grupo representa mais de 95% dos aparelhos Android fora da China.
Como o bloqueio funcionará
A verificação ocorre no próprio dispositivo. A partir de junho de 2026, o Google está distribuindo um novo serviço de sistema, chamado Android Developer Verifier, para celulares com Android 8 ou superior. Ele confirma se um aplicativo está registrado em nome de um desenvolvedor verificado antes de autorizar a instalação.
Após 30 de setembro, nos quatro países, aplicativos sem registro não poderão ser instalados pelo caminho convencional. Uma alternativa existe, mas é deliberadamente trabalhosa, em que o usuário precisa ativar o modo desenvolvedor, reiniciar o aparelho, aguardar 24 horas e se reautenticar antes de instalar o app não verificado. Esse fluxo alternativo, chamado de “advanced flow”, passa a valer globalmente em agosto de 2026.
Para se registrar, o desenvolvedor precisa fornecer ao Google nome legal, endereço e dados de contato, podendo ser solicitado também o envio de um documento de identidade emitido por governo. Além disso, deve comprovar a titularidade de cada aplicativo submetendo um APK assinado com sua chave privada. As inscrições foram abertas a todos os desenvolvedores em março, e o Google afirma que o programa já cobre quase a totalidade das instalações feitas pelo Google Play e uma grande parte das realizadas fora dele.
Em julho, chegam dois novos recursos: interfaces de programação (APIs) para registro em massa e verificação de nomes de pacotes, com suporte a delegação OAuth para que lojas de terceiros possam conduzir partes do processo. No mesmo mês, entra em acesso antecipado uma modalidade gratuita de conta para distribuição limitada, voltada a estudantes e hobbyistas. Ela permite compartilhar aplicativos com até 20 dispositivos, sem exigência de documento oficial e sem custo. O lançamento global dessa modalidade está previsto para agosto. A conta padrão de desenvolvedor tem taxa única de US$ 25.
Resistência da comunidade de código aberto
O argumento do Google para a medida é o combate a malwares. A empresa afirma que fontes de instalação fora do Play Store concentram volumes muito maiores de software malicioso e que golpistas têm adotado com frequência a tática de induzir vítimas a instalar APKs maliciosos diretamente nos dispositivos. A exigência de identidade e a espera de 24 horas seriam barreiras a esse tipo de ataque. Os quatro países do lançamento foram escolhidos por serem alvos frequentes de golpes envolvendo aplicativos, muitas vezes praticados por reincidentes.
A reação contrária à política existe desde o anúncio do programa, em agosto de 2025. O F-Droid afirma que o requisito de identificação inviabilizaria seu projeto, pois o repositório distribui aplicativos de contribuidores pseudônimos que não fornecerão identidade legal ao Google. Uma campanha chamada Keep Android Open, apoiada por mais de 70 organizações em 23 países, pediu ao Google que eliminasse a exigência de documento para apps distribuídos fora do Play Store.
As concessões anunciadas pelo Google, o fluxo alternativo de instalação e as contas para até 20 dispositivos, respondem à crítica de que o sideloading estaria sendo extinto, mas não endereçam a objeção central. Uma única empresa passaria a controlar o caminho de instalação de quase todos os dispositivos Android fora da China e a decidir quem terá acesso ao processo simplificado.
Três pontos permanecem em aberto antes da expansão global prevista para 2027:
- se o Google estabelecerá um processo de recurso para desenvolvedores sinalizados por engano;
- quais dados serão mantidos no registro de identidades e por quanto tempo; e
- se haverá algum caminho alternativo para repositórios como o F-Droid, que não conseguem cumprir a exigência de comprovação de titularidade por aplicativo sem alterar sua forma de operação.
