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Por que os maias levavam dentes para cavernas?

Pesquisa de Harvard identifica 341 amostras de dentes maias transportados por 26,5 km para caverna sagrada.

Por que os maias levavam dentes para cavernas?

Dentes de membros da elite maia foram retirados de túmulos e depositados numa caverna a 26,5 quilômetros de distância, numa prática que pode ter servido para venerar ancestrais ou garantir a passagem dos mortos ao submundo. A descoberta de acordo com a New Scientist é resultado de uma pesquisa conduzida por Esther Brielle, da Universidade Harvard, nos EUA, e seus colegas.

O estudo analisou remanescentes em vários sítios funerários no Belize datados do período Clássico maia (250 d.C. a 900 d.C.), quando comunidades maias habitavam cidades espalhadas pelo que hoje são o sul do México, Guatemala, Belize e norte de Honduras. Os pesquisadores geraram dados genômicos de centenas de amostras e usaram datação por radiocarbono para determinar quando cada indivíduo viveu.

A análise identificou 341 amostras correspondentes a 107 indivíduos distintos. Desses, 24 tinham elementos esqueléticos encontrados em dois locais diferentes: no Túmulo da Praça, sob uma casa no sítio maia conhecido como Muklebal Tzul, e na caverna Bats’ub, a 26,5 quilômetros de distância, do outro lado das montanhas maias.

Caverna e os vestígios encontrados

Na caverna, os pesquisadores encontraram 226 dentes pertencentes a pelo menos 24 pessoas, dispostos próximos ao corpo de uma mulher adulta. A cabeça dela havia sido removida. No lugar, estava parte de um recipiente contendo uma única conta de jade. Fragmentos de um crânio, possivelmente dela própria, e mandíbulas sem dentes foram encontrados perto da pelve, ao lado de um grande conjunto de dentes e de uma tigela invertida com cinco sementes de cacau. Nas proximidades, havia uma tigela laranja decorada com uma criatura mítica, metade colibri, metade serpente.

A análise genômica indicou que a mulher era ancestral de alguns dos indivíduos sepultados nos túmulos da elite. Os bens funerários sugerem que ela tinha origem real. Mirko De Tomassi, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, na Alemanha, levanta a possibilidade de que membros da alta sociedade tenham afirmado descender dela para legitimar seu poder. “Eles se conectavam, biológica ou ideologicamente, a um ancestral para ajudar a legitimar sua autoridade”, diz De Tomassi.

Os dados genômicos indicam que apenas o nível mais alto da sociedade de Muklebal Tzul levava dentes à caverna.

Xibalba e o simbolismo dos dentes

Angelina Locker, da Universidade Vanderbilt em Nashville, nos EUA, explica que as cavernas eram espaços sagrados por representarem a entrada para o submundo, o Xibalba. Segundo ela, é possível que apenas membros da elite tivessem permissão de estar nessa “boca” do submundo, um local de comunicação com as forças sobrenaturais que os maias acreditavam animar o mundo.

Locker aponta que membros da alta sociedade podem ter levado os dentes à caverna para venerar ancestrais e garantir que chegassem ao Xibalba. Sua pesquisa mostra que os maias concebiam o corpo como dividido em quatro componentes. Um deles, chamado Ik’, reside na boca e representa o sopro da alma. “Pode ter sido uma forma de os maias plantarem os dentes na boca de Xibalba para que aquela pessoa pudesse se reencarnar mais tarde”, diz Locker.

Asta Rand, da Universidade Nicolau Copérnico em Toruń, na Polônia, acrescenta que os dentes podem ter sido escolhidos por sua durabilidade, mas também por seu peso simbólico na cultura maia, na qual as pessoas modificavam os dentes por meio de lixamentos ou incrustações de joias. “Suspeito que tenham sido coletados de enterramentos, mas dentes podem cair ou ser arrancados em vida, então há também a possibilidade de que alguns tenham sido removidos ainda em vida”, diz Rand.

Para chegar à caverna, os envolvidos precisariam ter feito uma jornada de vários dias por terreno acidentado, observa De Tomassi. Ele compara a prática ao costume maia de peregrinação ao cenote sagrado de Chichén Itzá, no atual México, para depositar objetos preciosos.

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