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O espaço tem cheiro, e ele não é nada do que você imagina

Relatos de astronautas e moléculas detectadas em cometas e nuvens interestelares sugerem que o espaço tem odores metálicos, químicos e surpreendentes.
Imagem: NASA

O espaço costuma entrar no imaginário como um lugar de estrelas, planetas e galáxias coloridas. Mas astronautas relatam outro detalhe menos óbvio: ao voltar de atividades fora da nave, seus trajes e equipamentos podem trazer um cheiro forte, metálico e difícil de esquecer.

A curiosidade importa porque mostra que o cosmos não é um vazio sem identidade química. Ele contém gases, poeira, radiação, plasma e moléculas que ajudam cientistas a entender a composição de cometas, nuvens interestelares e ambientes planetários.

O cheiro que astronautas sentem ao voltar

Astronautas descrevem o cheiro mais comum do espaço como metálico. Alguns comparam o odor a ozônio, pólvora, carne selada ou fumaça de solda.

De acordo com o site Mental Floss, o astronauta alemão Alexander Gerst disse que, para ele, o espaço cheira a uma mistura de nozes e pastilhas de freio de sua moto. Já o norte-americano Don Pettit também descreveu uma sensação metálica adocicada, parecida com a fumaça de solda que sentia ao reparar equipamentos pesados.

Esse cheiro não significa que alguém consiga “respirar” o espaço. O odor aparece quando moléculas ou partículas interagem com trajes e ferramentas e depois entram em contato com o ar dentro da nave.

Por que o espaço pode cheirar a metal

Uma das hipóteses envolve hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Esses compostos aparecem em várias regiões do universo e também existem na Terra em materiais como torrada queimada, carne tostada, fuligem e escapamento de carros.

Segundo Louis Allamandola, ex-diretor do Laboratório de Astrofísica e Astroquímica do NASA Ames, estrelas moribundas liberam carbono capaz de formar uma substância escura e semelhante à fuligem. Essa poeira rica em compostos aromáticos pode durar muito tempo e grudar em equipamentos espaciais.

Outra hipótese aponta para o ozônio. A radiação ultravioleta pode quebrar moléculas de oxigênio no espaço. Quando átomos de oxigênio entram em contato com O₂, eles podem formar O₃, o ozônio, conhecido pelo cheiro metálico.

Cometas e nuvens com odores extremos

A química espacial também pode ser bem menos agradável. Em 2014, por exemplo, a sonda Rosetta, da Agência Espacial Europeia, passou pelo cometa Churyumov-Gerasimenko e detectou moléculas com cheiros muito diferentes.

Entre elas estavam sulfeto de hidrogênio, associado a ovo podre; cianeto de hidrogênio, venenoso e levemente adocicado; amônia, com odor de urina; e formaldeído.

Nuvens moleculares também guardam combinações curiosas. Sagittarius B2, uma nuvem de poeira no centro da Via Láctea, contém formiato de etila, composto ligado ao sabor das framboesas. Ele pode se formar a partir de uma reação entre álcool e ácido, com odor parecido com rum.

Planetas também teriam cheiro próprio

Venus e Urano provavelmente teriam cheiro forte de ovo podre por causa de compostos de enxofre em suas atmosferas. Marte, com dióxido de carbono, ácidos e enxofre, poderia ter um odor ácido e desértico.

Por outro lado, Titã, maior lua de Saturno, contém traços de benzeno, o que lembraria gasolina. Já Júpiter pode ter notas de amônia e fósforo, algo entre alho e combustível.

Por fim, o “cheiro do espaço” é menos perfume e mais assinatura química. É a prova invisível de que até o vazio aparente guarda uma mistura intensa de matéria, energia e história cósmica.

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Hemerson Brandão

Hemerson Brandão

É editor-chefe, repórter e copywriter, escrevendo principalmente sobre ciência, tecnologia e cultura nerd e geek. Entusiasta da astronomia, acompanha temas ligados à exploração espacial e é fã de Star Trek.