Boom de IA pode aumentar emissões de gases de efeito estufa nos EUA
A expansão dos centros de dados que sustentam tecnologias de IA elevará as emissões de carbono e os custos de eletricidade nos Estados Unidos na próxima década. O alerta consta em análise da entidade UCS (União de Cientistas Preocupados. O estudo indica, porém, que políticas de incentivo às energias renováveis poderiam reverter essa tendência, mesmo com o crescimento acelerado do setor.
A UCS apresenta diferentes cenários para atender ao aumento da demanda energética relacionada à IA no país.
De acordo com a Wired, em um cenário onde as políticas atuais permanecem inalteradas, com poucos controles nacionais sobre emissões de carbono, as usinas americanas poderiam emitir entre 19% e 29% mais CO2 nos próximos dez anos apenas para suprir as necessidades dos centros de dados.
Crescimento da demanda energética
O estudo projeta que os EUA enfrentarão um aumento de 60% a 80% na demanda por eletricidade até 2050. Desse crescimento, os centros de dados representarão mais da metade até o final desta década.
O momento é particularmente preocupante porque no ano passado as emissões do setor energético norte-americano cresceram ligeiramente, sendo o primeiro aumento desde 2023. Conforme análise separada do Grupo Rhodium divulgada na semana passada, edifícios comerciais, incluindo centros de dados, foram os principais responsáveis por esse crescimento na demanda.
Políticas da administração Trump
Enquanto isso, o governo Trump tem implementado medidas que dificultam a expansão das energias renováveis. Em dezembro, foram emitidas ordens de paralisação para cinco parques eólicos em construção na Costa Leste dos EUA, sob alegação de preocupações com segurança nacional. No entanto, três juízes diferentes decidiram recentemente que as construções podem continuar.
“A administração Trump está fazendo isso com projetos que já foram aprovados e estão em construção”, afirma Steve Clemmer, autor principal da análise e diretor de pesquisa de energia da UCS. “Isso envia um sinal desanimador para a indústria e para os esforços de alimentar centros de dados e atender à demanda de eletricidade. Precisamos construir o máximo possível, o mais rápido possível.”
Uma política do Departamento do Interior que exige revisão de todos os projetos eólicos e solares em terras federais criou um gargalo de 22 gigawatts de projetos, uma energia suficiente para abastecer mais de 16 milhões de residências.
Soluções possíveis
A análise da UCS mostra que a reintrodução de créditos fiscais para energia eólica e solar, que foram alvos políticos no ano passado, poderia reduzir as emissões de CO2 em mais de 30% na próxima década. Além disso, essas políticas poderiam diminuir os custos de eletricidade no atacado em cerca de 4% até 2050, após um ligeiro aumento inicial.
O estudo também modelou cenários de descarbonização mais profunda da rede elétrica dos EUA. Este cenário aumentaria os custos de eletricidade no atacado até 2050 em aproximadamente US$ 412 bilhões (7% de aumento). Porém, evitaria até US$ 13 trilhões em custos climáticos, incluindo danos por inundações, incêndios florestais e outros eventos extremos, além dos custos de saúde associados às usinas poluentes.
Posicionamento das empresas de tecnologia
Na semana passada, com incentivo da Casa Branca, a Microsoft apresentou compromissos para que seus centros de dados sejam “melhores vizinhos” para as comunidades onde estão instalados. Porém, sem mencionar emissões ou políticas climáticas.
As grandes empresas de tecnologia fizeram diversas promessas nos últimos anos para reduzir emissões e adotar práticas mais sustentáveis. Porém, o crescimento da IA prejudicou muitos desses compromissos.
“Definitivamente precisa haver proteções muito mais fortes para os próprios data centers. Assim como para garantir que tenhamos capacidade e geração de eletricidade suficientes para alimentar esses centros de dados. E que isso não prejudique outros clientes”, diz Clemmer.
Fatores econômicos
Apesar das políticas contrárias às energias renováveis, especialistas apontam que razões econômicas continuam impulsionando a expansão de fontes como solar e eólica no país. Mais de 90% da nova energia adicionada à rede elétrica dos EUA no ano passado veio de fontes solares, eólicas e sistemas de armazenamento.
“O que é tão maluco sobre as renováveis é que ambos os argumentos políticos são verdadeiros”, afirma Pier LaFarge, cofundador da Sparkfund, uma empresa de serviços de utilidade pública. “Elas são a energia mais barata na fonte de geração, mas também estão aumentando as tarifas devido às atualizações downstream na rede de distribuição.”
“A boa notícia é que, assim como a administração anterior de Biden não conseguiu controlar o destino do universo, a administração Trump também não consegue”, comenta outro especialista. “Estamos construindo mais renováveis mais rapidamente em mais lugares por razões puramente econômicas.”
