Um estudo publicado no banco de dados de preprints bioRxiv revelou que células maternas podem infiltrar o cérebro de bebês durante a gestação e persistir por décadas, chegando a ser encontradas em indivíduos na casa dos 90 anos. Os achados ainda não passaram por revisão por pares.
A pesquisa integra um campo crescente de investigação sobre o microchimerismo, o fenômeno pelo qual mãe e feto trocam células durante a gravidez. A novidade é que essas células maternas, ao chegarem ao cérebro, assumem funções ativas e se transformam em diferentes tipos de células cerebrais.
O que o estudo encontrou
A equipe liderada por Sami Kanaan, cientista do Fred Hutchinson Cancer Center, nos EUA, analisou tecido cerebral removido cirurgicamente de dezenas de crianças com epilepsia grave. Os pacientes tinham entre 28 dias e 19 anos na época da cirurgia. As mães forneceram amostras de DNA por meio de swabs bucais.
A técnica utilizada foi a PCR quantitativa, capaz de identificar e contar células maternas entre milhões de células cerebrais. De 37 pares mãe-filho analisados, 26 crianças (70%) apresentavam células da mãe no cérebro. Essas células estavam distribuídas por múltiplas regiões, incluindo os lobos frontal, temporal e parietal e o hipocampo. Em média, havia cerca de 2,2 células maternas por 100 mil. Uma amostra do hipocampo chegou a 459 células maternas por 100 mil.
Ser o primogênito pareceu aumentar as chances de carregar células maternas no cérebro. Entre as crianças com essas células, 14 eram primogênitas e 12 eram filhos posteriores. Entre as que não apresentavam essas células, apenas uma era primogênita e dez eram filhos mais novos.
Por meio do sequenciamento de RNA de núcleo único, os pesquisadores identificaram em quais tipos de células cerebrais as células maternas se converteram. A lista incluía neurônios, oligodendrócitos, astrócitos, microglia e células endoteliais.
Achados em cérebros saudáveis
Para verificar se os resultados se aplicavam a pessoas sem epilepsia, os pesquisadores examinaram dados de autópsia cerebral de 29 indivíduos sem condições neurodesenvolvimentais conhecidas, com idades entre 22 semanas de gestação e 40 anos. Também analisaram tecido cerebral de três homens entre o fim dos 80 e início dos 90 anos, coletado originalmente em um estudo sobre Alzheimer.
No total, células estranhas foram encontradas em 25 das 32 pessoas avaliadas, o equivalente a cerca de 78%, incluindo o cérebro de um homem na casa dos 90 anos. Os pesquisadores suspeitam que essas células sejam maternas, mas não puderam confirmar porque não tinham amostras de DNA das mães. A equipe apontou que as células poderiam ter origem em um gêmeo, em um irmão mais velho, em uma gravidez anterior ou aborto, ou, raramente, em uma avó materna.
O número de células maternas diminuiu com a idade, mas nunca desapareceu completamente. Em cérebros mais jovens, essas células se tornavam com maior frequência um tipo específico de neurônio, o neurônio de camada 2/3. Em cérebros mais velhos, eram mais propensas a se tornar microglia.
Amy Boddy, co-diretora do Microchimerism, Human Health and Evolution Project da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos EUA, que não participou do estudo, declarou ao Live Science que a relevância metodológica dos achados é significativa. “O que é empolgante aqui é que é tecido, não sangue. São dados reais de humanos, não um modelo animal. E os métodos são de ponta”, afirmou. Boddy acrescentou ainda que o trabalho reforça a ideia de que o microchimerismo é “um processo normal da biologia dos mamíferos”.
Sobre a capacidade de identificar as funções das células, ela declarou: “Ser capaz de usar o sequenciamento de RNA de núcleo único para identificar que tipo de células as células microquiméricas maternas realmente são é incrível. Temos sido tão limitados na compreensão da função dessas células, e artigos como este, com esses métodos, estão nos aproximando.”
O Dr. Sing Sing Way, pesquisador de microchimerismo do Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, que também não participou do estudo, declarou que estudos futuros se beneficiariam de conjuntos de dados maiores e mais uniformes. Isso implicaria obter mais biópsias cerebrais, analisar mais células de cada amostra, coletar espécimes em diferentes idades e amostrar regiões cerebrais semelhantes entre indivíduos para comparar melhor os resultados.
