Uma nova pesquisa nos Estados Unidos mostra que a inteligência artificial já virou uma preocupação concreta dentro do trabalho. De acordo com levantamento divulgado pela AFL-CIO, maior federação sindical do país, mais de 9 em cada 10 trabalhadores apoiam políticas de proteção contra usos abusivos de IA no emprego.
O resultado indica que o debate deixou de ser apenas tecnológico. Para muitos profissionais, a pergunta agora é quem decide contratações, demissões, monitoramento, escala de trabalho e até avaliações de desempenho quando algoritmos entram na rotina.
Trabalhadores querem humanos no comando
O dado mais forte da pesquisa envolve decisões que afetam diretamente a vida profissional. Segundo o levantamento, 95% dos entrevistados apoiam a exigência de que uma pessoa seja a decisora final em questões que envolvam trabalhadores e seus empregos.
A lógica é de que a IA pode analisar dados, sugerir padrões e automatizar processos. Mas uma decisão sobre salário, jornada, demissão ou desempenho carrega impacto humano demais para ficar apenas nas mãos de um sistema.
Além disso, 92% dos trabalhadores apoiam barreiras avançadas contra usos prejudiciais de IA no ambiente de trabalho. O mesmo índice defende transparência e responsabilização quando empregadores adotam essas ferramentas.
Sindicatos aparecem como proteção mais confiável
A pesquisa ouviu 1.588 pessoas nos Estados Unidos entre 14 de abril e 22 de abril. Todas as proteções testadas tiveram apoio de pelo menos 75% dos entrevistados.
Entre elas, 75% defenderam ampliar oportunidades para que trabalhadores formem sindicatos com o objetivo de proteger empregos diante da IA.
Quando perguntados sobre quem seria mais confiável para defender trabalhadores dos efeitos da tecnologia, 38% escolheram sindicatos. Democratas apareceram com 17%, republicanos com 10% e empregadores com apenas 6%. Outros 18% não escolheram nenhuma das opções.
Monitoramento por IA ainda é pouco transparente
O levantamento também mostra uma zona cinzenta importante. Apenas 7% dos trabalhadores afirmaram que seus empregadores informaram como e quando o trabalho deles é monitorado por IA.
Por outro lado, 70% disseram que as empresas não fizeram essa divulgação, enquanto 23% não souberam responder. Ao mesmo tempo, 94% afirmaram que os trabalhadores devem ser informados quando a IA monitora suas atividades.
Ou seja, a tecnologia pode estar funcionando como uma câmera invisível no escritório, na fábrica, no hospital ou na redação. O problema não é apenas a existência da ferramenta, mas a falta de clareza sobre seu uso.
Contratos já começam a incluir limites
O avanço da IA também aparece nas negociações coletivas. Trabalhadores passaram a buscar cláusulas específicas para definir como essas ferramentas podem entrar no ambiente profissional.
Ao The Guardian, Anna Iovine, representante da Ziff Davis Creators Guild, afirmou que empresas podem usar IA como justificativa para demissões, cortes de equipe e redução de custos, mesmo quando os resultados são ruins. O sindicato dela conseguiu proteções em contrato em 2024, incluindo integridade editorial, transparência e veto a demissões ou redução salarial causadas pela implementação de IA.
Na saúde, Hannah Drummond, enfermeira nos EUA e integrante da National Nurses United, relatou preocupação com algoritmos usados em escalas e na previsão de piora de pacientes. Para ela, novas tecnologias não devem reduzir a autonomia profissional nem afetar o cuidado sem passar pelo sindicato.
Um debate que chegou ao chão de fábrica
Segundo a pesquisa, 78% dos trabalhadores consideram extremamente ou muito importante que alguma ação proteja profissionais dos possíveis danos da IA.
Liz Shuler, presidente da AFL-CIO, afirmou que os resultados mostram um mandato para colocar trabalhadores em primeiro lugar no debate sobre IA. A mensagem central é que a tecnologia avança, mas os trabalhadores querem regras antes que o algoritmo vire chefe.
