Cientistas da Escola Nicholas do Meio Ambiente, nos EUA, descobriram que mudanças no teor de sal da água do mar influenciam a força do fenômeno climático El Niño. A descoberta foi publicada na revista científica Geophysical Research Letters. Os resultados podem ajudar no desenvolvimento de previsões mais precisas desse fenômeno que altera o clima em escala global.
Padrões de salinidade precedem eventos climáticos
A equipe de pesquisadores analisou dados públicos sobre os oceanos para identificar padrões globais de salinidade que antecederam grandes eventos de El Niño nas últimas seis décadas e meia. Com financiamento da NASA, a equipe utilizou modelos computacionais preparados para processar dados climáticos. O objetivo era confirmar se determinados padrões de salinidade poderiam alterar as condições do El Niño.
Shizuo Liu, associado pós-doutoral no laboratório de Hu e primeiro autor do artigo, explica a metodologia. “Basicamente, usamos os modelos para ver se certos padrões de salinidade que identificamos poderiam alterar as condições do El Niño”, disse. “Por exemplo, examinamos se o ajuste da salinidade tornaria o El Niño mais ou menos provável, ou mais ou menos intenso.”
Distribuição desigual de sal motiva investigação
A investigação partiu da constatação de que pesquisas existentes negligenciaram o papel potencial da salinidade oceânica na formação de eventos de El Niño. Shineng Hu, professor assistente de dinâmica climática na Escola Nicholas, supervisionou o novo estudo. O sal oceânico não é uniforme. Assim, algumas partes do mar são mais salgadas, outras mais frescas, dependendo de chuvas, evaporação e outros fatores.
“As correntes oceânicas podem transportar essas águas salgadas ou frescas e redistribuir a salinidade do oceano”, explica Hu. “Também é provável que essa variabilidade da salinidade possa, por sua vez, influenciar as correntes oceânicas e, portanto, fenômenos climáticos como o El Niño.”
Correntes oceânicas impulsionadas pela salinidade
Os resultados confirmaram que certos padrões de salinidade podem alimentar a força do El Niño. Durante a primavera no Pacífico ocidental, uma combinação de água mais fresca no equador e água mais salgada em áreas mais distantes promove correntes oceânicas em direção ao leste. Essas correntes empurram águas superficiais quentes para o leste, alimentando o desenvolvimento do El Niño.
A análise abrangeu padrões globais de salinidade que precederam grandes eventos de El Niño ao longo dos últimos 65 anos. Os padrões de salinidade analisados ocorrem no Oceano Pacífico, especificamente na região equatorial e no Pacífico ocidental.
Impacto na intensidade do fenômeno
Esse processo pode aumentar a intensidade do El Niño em aproximadamente 20%. O estudo também indica que um El Niño extremo se torna duas vezes mais provável devido a esses padrões de salinidade.
Liu afirma que os resultados têm implicações práticas. “As descobertas indicam que a salinidade é outro fator que deve ser considerado em modelos futuros de previsão do El Niño”, disse. Os resultados podem informar o desenvolvimento de previsões mais precisas do El Niño.
Formação do El Niño depende de múltiplos fatores
O El Niño ocorre a cada dois a sete anos, marcado por condições mais úmidas em algumas partes do mundo e clima mais seco em outras. Sua formação depende do enfraquecimento dos ventos alísios. Essas correntes de ar persistentes impulsionaram incontáveis veleiros de leste a oeste ao longo do equador.
Tipicamente, esses ventos empurram águas mais profundas e frias do Pacífico oriental em direção à superfície através de um processo chamado ressurgência. Quando os ventos alísios enfraquecem, a ressurgência diminui. As águas superficiais quentes se tornam ainda mais quentes. Essas águas mais quentes promovem mudanças na pressão do ar que enfraquecem ainda mais os ventos alísios. Assim, eventualmente levando aos padrões climáticos associados ao El Niño.
Além disso, eventos de El Niño mais intensos podem causar, por exemplo, inundações catastróficas e secas severas, entre outros desastres.
