A Microsoft publicou um artigo extenso em resposta à onda de vaias que estudantes formandos nos Estados Unidos têm direcionado a palestrantes que exaltam a inteligência artificial em cerimônias de colação de grau. O texto, assinado por Brad Smith, vice-presidente e presidente da empresa, ultrapassa 3.100 palavras.
O posicionamento, noticiado pelo The Verge, surge em meio à proliferação de vídeos virais que registram formandos vaiando e interrompendo oradores ao menor sinal de entusiasmo com a IA.
Entre os casos mais repercutidos está o do ex-CEO do Google Eric Schmidt, que enfrentou a reação dos estudantes na Universidade do Arizona, nos EUA. Em outro episódio, um palestrante na Flórida demonstrou surpresa ao ser vaiado ao descrever a IA como “a próxima revolução industrial”.
Tom conciliador, argumento familiar
No artigo, Smith adota um tom de reconhecimento de que as vaias seriam um sinal saudável e necessário. “Estudantes formandos que fazem careta ou até vaiam referências à IA estão nos dizendo o que precisamos ouvir, que é hora de elevar o nível mais uma vez”, escreve o executivo. “Essa tem sido uma frase frequente dos estudantes por décadas. A chave é sempre canalizar a incerteza em passos propositivos que constroem um futuro melhor.”
Smith também argumenta que os jovens estariam em posição privilegiada para lidar com as transformações trazidas pela tecnologia, por terem crescido conectados e serem mais adaptáveis. “Você está em uma posição única para causar um impacto positivo. Você viveu desafios significativos”, afirma o executivo. “Embora possa parecer injusto que o mercado de trabalho seja tão incerto, você foi feito para este momento.”
O problema, segundo a análise do The Verge, é que o argumento central do texto de Smith é essencialmente o mesmo que provoca as vaias. Ou seja, que a IA vai remodelar a cultura, o trabalho e as relações de formas ainda imprevisíveis. A diferença está no tom, não na substância.
Credibilidade em xeque
O artigo também levanta uma questão de credibilidade. Figuras como Sam Altman, da OpenAI, parceira da Microsoft, alertaram publicamente sobre os riscos catastróficos da IA antes de recuar das declarações quando perceberam a má recepção. A pergunta que fica é por que o público deveria confiar justamente nas pessoas que geraram essa incerteza para corrigi-la.
Em publicação na rede social X, Smith escreveu que os formandos que vaiam estão “nos lembrando que a IA deve servir às pessoas, não substituí-las”. O The Verge aponta que o fato de essa lembrança ser necessária é, em si, o cerne do problema.
O fenômeno das vaias reflete uma tensão mais ampla. A tecnologia é massivamente adotada pelas empresas sem consulta aos usuários, ao mesmo tempo que se torna impopular entre parcelas significativas da população. Jovens usam ferramentas de IA, mas relatam desconforto com isso. A resistência a grandes centros de dados começa a se consolidar como tema político relevante nos Estados Unidos.
