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Hubble vê cometa fazer algo inédito no Sistema Solar

Hubble detecta um cometa invertendo a rotação

Hubble vê cometa fazer algo inédito no Sistema Solar

Astrônomos usando o telescópio espacial Hubble detectaram pela primeira vez evidências de que um cometa não apenas desacelerou sua rotação, mas também passou a girar no sentido oposto. O protagonista desse comportamento raro é o cometa 41P Tuttle Giacobini Kresák (ou simplesmente 41P), um pequeno corpo do Sistema Solar que pode estar mudando de forma rápida diante dos olhos dos cientistas.

A descoberta importa porque mostra, de maneira direta, como a atividade de um cometa pode mexer profundamente com sua física. Em vez de ser uma bola de gelo e poeira apenas seguindo sua órbita, o 41P aparece como um objeto instável, sensível e capaz de sofrer transformações dramáticas em uma escala de tempo humana.

O que o Hubble revelou de inédito

O estudo indica que esse é o primeiro caso em que pesquisadores observaram evidências de um cometa revertendo o próprio giro. De acordo com a interpretação dos dados, o 41P continuou desacelerando até quase parar e, depois disso, começou a girar em uma direção quase oposta à original. Veja a simulação:

Essa conclusão surgiu a partir da comparação entre observações feitas em momentos diferentes de 2017. Após uma passagem próxima ao Sol naquele ano, cientistas já haviam percebido que o cometa tinha reduzido fortemente sua velocidade de rotação.

Dados do observatório Neil Gehrels Swift, da NASA, em maio de 2017, mostraram que o objeto girava três vezes mais devagar do que em março de 2017, quando havia sido observado pelo Discovery Channel Telescope, no Observatório Lowell, nos EUA.

Depois veio a peça que completou o quebra-cabeça.

O giro mudou de forma extrema em poucos meses

Imagens do Hubble obtidas em dezembro de 2017 mostraram o cometa voltando a girar mais rápido, com período de aproximadamente 14 horas. Isso contrastava com o intervalo de 46 a 60 horas medido antes pelo Swift.

Para os pesquisadores, a explicação mais plausível é que o cometa seguiu desacelerando até ficar perto de uma parada total. Então, os jatos de gás que saíam de sua superfície passaram a empurrá-lo de tal forma que o corpo começou a girar no sentido quase contrário.

É como um carrossel sendo empurrado ao contrário do movimento. Primeiro ele perde velocidade. Se o empurrão continuar, ele para e depois começa a rodar na outra direção.

Por que esse cometa é tão vulnerável

O Hubble também ajudou a limitar o tamanho do núcleo do 41P. Ele mede cerca de 1 quilômetro de largura, ou aproximadamente três vezes a altura da Torre Eiffel.

Isso faz diferença porque o cometa é muito pequeno para os padrões desses objetos. E corpos pequenos são mais fáceis de torcer ou desestabilizar. Assim, quando o cometa se aproxima do Sol, o calor faz os gelos congelados sublimarem, liberando material para o espaço.

Esses jatos funcionam como pequenos propulsores naturais. Se estiverem distribuídos de forma desigual pela superfície, conseguem alterar de modo importante a rotação do núcleo. No caso do 41P, os jatos estavam atuando contra o movimento inicial, freando o giro. Como continuaram empurrando, acabaram provocando a inversão.

Um cometa que parece estar mudando rápido demais

O estudo aponta ainda que a atividade total do cometa caiu bastante em comparação com passagens anteriores. Em sua passagem pelo periélio em 2001, o 41P era incomumente ativo para seu tamanho. Em 2017, a produção de gás havia diminuído em cerca de uma ordem de magnitude.

Essa mudança sugere que a superfície do cometa pode estar evoluindo rapidamente. Uma possibilidade é que materiais voláteis próximos da superfície estejam se esgotando. Outra é que camadas de poeira com efeito isolante estejam cobrindo essas regiões.

Esse ponto torna o caso ainda mais interessante. Em muitos cometas, mudanças estruturais acontecem em séculos ou em intervalos ainda maiores. Aqui, os pesquisadores estão vendo transformações relevantes em uma escala comparável à de uma vida humana.

O cometa pode estar caminhando para a destruição

As simulações baseadas nos torques medidos e nas taxas de perda de massa indicam que mudanças contínuas de rotação podem levar o 41P a uma instabilidade estrutural. Se um cometa gira rápido demais, a força centrífuga pode superar sua gravidade fraca e sua resistência interna, provocando fragmentação ou até desintegração.

O autor do estudo, David Jewitt, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos EUA, afirmou que espera que esse núcleo se autodestrua muito rapidamente.

Ainda assim, o 41P provavelmente ocupa sua órbita atual há cerca de 1.500 anos. Isso significa que, embora o colapso completo possa parecer iminente em termos astronômicos, o cometa já sobrevive há muito tempo em sua trajetória pelo Sistema Solar interior.

Por que essa observação merece atenção

O caso do 41P oferece uma chance rara de assistir à evolução física de um pequeno corpo do Sistema Solar quase em tempo real. Isso porque, em vez de depender apenas de modelos teóricos, os astrônomos agora têm um exemplo concreto de como jatos de gás podem desacelerar, inverter e talvez até condenar um cometa.

Mais do que uma curiosidade orbital, a descoberta transforma o 41P em um laboratório natural para entender como esses visitantes gelados mudam, enfraquecem e, em alguns casos, podem desaparecer.

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